segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O sofrimento que sentimos nasce em nossa mente


Séculos antes do desenvolvimento da ciência ocidental, o Buda chegou ao entendimento de que o sofrimento origina-se na mente – no “olho”, por assim dizer, “de quem vê”.

Embora os termos que ele usou possam diferir daqueles dos biólogos, neurocientistas e psicólogos modernos, os insights que ofereceu são notavelmente semelhantes.

De acordo com as primeiras apresentações escritas dos ensinamentos do Buda sobre a Segunda Nobre Verdade, dukkha surge de uma condição mental básica, que, em páli, refere-se ao termo tanha, ou “desejar”. Os estudantes que fizeram as transcrições iniciais do páli para o sânscrito traduziram a causa como trishna, ou “sede”. Quando os ensinamentos foram trazidos para o Tibete, a causa foi traduzida como dzinpa, ou “impulso de agarrar”. 

À sua própria maneira, cada um desses três termos reflete um anseio mental fundamental em direção à permanência ou estabilidade – ou, visto de outra forma, uma tentativa de negar ou ignorar a impermanência.
O mais básico desses anseios é a tendência, muitas vezes descrita nos textos budistas como ignorância, de confundir “eu”, “outro”, “sujeito”, “objeto”, “bom”, “ruim” entre outras distinções relativas como tendo uma forma independente, inerentemente existente.

Em um nível muito simples, a ignorância poderia ser descrita por pensar que o rótulo de uma garrafa de molho picante é o molho em si. 

Da concepção de que pessoas, lugares e coisas são inerentemente sólidas e reais surgem dois impulsos igualmente poderosos. O primeiro, em geral chamado de desejo, é um anseio de adquirir ou manter o que determinamos como agradável. O segundo, conhecido como aversão, é um movimento na direção oposta, para evitar ou eliminar coisas que definimos como desagradáveis. 

Juntos, ignorância, desejo e aversão são chamados nos textos budistas de “os três venenos”, hábitos tão profundamente arraigados de como nos relacionar com as experiências que nublam ou “envenenam” a mente. 

Individualmente e em conjunto, dão origem a inúmeras outras atitudes e emoções – por exemplo, orgulho, perfeccionismo, baixa autoestima ou ódio contra si mesmo; o ciúme que sentimos quando um colega de trabalho recebe uma promoção que pensamos merecer; ou um nó de tristeza e desesperança que nos oprime quando lidamos com um parente doente ou idoso. Dessa forma, alguns ensinamentos budistas referem-se a essas atitudes e emoções como “aflições” ou “obscurecimentos”, porque limitam as maneiras com que interpretarmos a experiência – que, por sua vez, inibe o nosso potencial de pensar, sentir e agir.

Uma vez que desenvolvemos um sentimento de “eu” e “não eu”, começamos a nos relacionar com a nossa experiência em termos de “meu” e “não meu”; “o que eu tenho” e “o que eu não tenho”; e “o que eu quero” e “o que eu não quero”. 
Imagine, por exemplo, que enquanto você está dirigindo seu carrinho bem velho e decaído pela estrada, passe por você um carro novo e luxuoso – um Mercedes ou um Rolls-Royce que acabou de ser amassado em um acidente. Você poderia até sentir um pouco de pena do proprietário, mas não necessariamente sentiria qualquer ligação com o automóvel.

Poucos meses depois, vendo-se na posição de trocar o seu velho carro, vai visitar uma loja de carros usados e encontra disponível um Mercedes ou Rolls-Royce por um preço inacreditável. Na verdade, é o mesmo automóvel que você viu amassado no acidente meses antes, mas assim que assina o contrato, isso não importa. O carro é seu agora – e ao dirigi-lo de volta para casa, uma pedra bate e trinca o para-brisa. Tragédia! Meu carro está arruinado. Eu tenho que gastar para consertá-lo! É o mesmo carro que você viu amassado em um acidente alguns meses atrás, e então não sentiu nada ao passar por ele. Mas agora é o seu carro, e se o para-brisa estiver trincado, você sente muita raiva, frustração e talvez um pouco de medo. 

Então, por que simplesmente não paramos com isso? Por que não abrimos mão dos venenos e das suas “crias”? 

Se fosse assim tão fácil, é claro, todos nós seríamos Budas antes que pudéssemos chegar ao final desta frase! Segundo os ensinamentos do Buda e os comentários de outros mestres, o Três Venenos e todos os outros hábitos emocionais que surgem a partir deles não são, em si mesmos, as causas do sofrimento. 

Ao contrário, o sofrimento surge do apego a eles, que é o mais próximo que podemos chegar do significado essencial da palavra dzinpa em tibetano.
Conforme foi mencionado anteriormente, essa palavra é geralmente interpretada como um “impulso de agarrar”, mas também já ouvi a tradução de “fixação”, que penso ser a que mais se aproxima do significado profundo do termo.

Dzinpa é uma tentativa de fixar no tempo e no espaço o que está em constante movimento e mutação. “Tal como matar borboletas”, disse uma de minhas alunas. 

Quando perguntei o que queria dizer com isso, ela descreveu as pessoas que têm o hobby de caçar e matar borboletas, e depois fixar seus corpos em telas de vidro pelo puro prazer de olhar para a sua coleção ou mostrá-la aos amigos.

“Criaturas tão lindas e delicadas”, disse ela com tristeza. “Elas são feitas para voar. Se não voarem, não são realmente borboletas, não é?” De certa forma ela estava certa.

Quando ficamos fixados em nossas percepções, perdemos nossa capacidade de voar.

* * *
Nota do editor: este texto é um trecho do livro Alegre Sabedoria, de Yongey Mingyur Rinpoche, respeitado mestre de meditação tibetana. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor publicado no PapodeHomem. É parte de uma nova parceria, que nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano que o PapodeHomem apoia. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ex-diretora-executiva do "O Boticário" largou tudo pra ser estagiária em uma floricultura.



Conheça a história de Andrea Mota, ex-diretora de O Boticário, que largou uma carreira brilhante em busca de qualidade de vida

Com diagnóstico de síndrome de burnout – “pane” causada por pico de estresse –, a então big boss da marca resolveu mudar drasticamente de vida. “Não quero mais ser executiva. O preço é alto demais”, diz a nova estagiária de uma floricultura


Andrea Mota largou tudo pra ser estagiária em uma floricultura (Foto: Daniel Katz)


"Dezembro de 2013. Era o meu 5o ano como diretora-executiva de O Boticário. Gerenciava quatro diretores, 700 funcionários, mil franqueados e uma equipe indireta de 25 mil pessoas. Bom, vocês imaginam o quão estressante era esse período de fim de ano, época de pressão máxima pra bater metas. Estava exausta! Sentia meu corpo e minha mente no limite: insônia, tontura, mau humor, tremores faciais... os sinais de estresse estavam ali, escancarados. Mas, ok, nada de novo no front, afinal havia aprendido a lidar com todo tipo de pressão. “Você sempre deu conta, só precisa de férias”, repetia pra mim mesma. Porém, daquela vez foi diferente.

Nem a viagem de férias me fez melhorar. Bem pelo contrário. No dia 11 de janeiro de 2014, estava com o Natan, meu marido, e meus filhos, Caio e Izadora, na Bahia – moro há 13 anos em Curitiba, mas sou baiana e tenho casa lá –, e acordei com uma dor de cabeça infernal. Minha mente parecia mais acelerada que o normal, não sei explicar ao certo. Também não conseguia levantar da cama. Fiquei lá, tentando descansar, e o Natan levou as crianças à praia. Não queria que elas me vissem daquele jeito. Mais tarde, quando já estavam todos de volta, meus braços, do nada, paralisaram. Entrei em desespero! “Estou tendo um derrame!”, gritei. O Natan ligou correndo pra minha irmã, que é médica e nossa vizinha de condomínio. 

Já no hospital, após uma bateria de exames, veio o diagnóstico: síndrome de burnout. É uma doença dos tempos modernos, caracterizada por um estado máximo de exaustão física, mental e emocional devido ao acúmulo de estresse. Assim: o organismo recebe um excesso de estímulos tão grande que os neurotransmissores simplesmente param de fazer sinapses. Tipo uma pane. Por sorte, a minha foi leve. Gradativamente, tudo foi voltando ao normal com a ajuda de remédio pra dormir e antidepressivos. “Mude de vida. Reduza o ritmo, faça terapia, se exercite, cuide mais de você”, recomendou o médico.

Exatos nove dias depois do surto, já estava em Curitiba, de volta ao trabalho. Foi um dia horrível. Lembro-me de ter sentido medo das minhas reações, já que pela primeira vez na vida não estava no controle. Tive uma longa reunião com o Artur [Artur Grynbaum, presidente do Grupo Boticário] e com a diretoria pra explicar o ocorrido – fui o mais transparente possível e pedi compreensão. Todos concordamos que eu reduziria o ritmo: na prática, passei a ser mais seletiva com os compromissos e diminuí o número de viagens. Além de continuar com os remédios, montei uma superequipe pra me ajudar a reduzir o estresse: psicólogo, personal trainer, coach, homeopata, massoterapeuta. Tinha ao meu lado o time mais incrível do mundo, mas não fazia ideia de como, de fato, mudar meu ritmo. Veja bem, durante a minha gestão, a empresa cresceu três vezes mais que o esperado e se tornou uma das marcas mais admiradas do País. Só pra dar um exemplo: as metas traçadas pra 2018 foram alcançadas em 2014. Ninguém consegue tamanho sucesso com uma dedicação mais ou menos. É preciso comprometimento, paixão. Por isso, jornadas de trabalho de 14 horas por dia são inevitáveis, assim como um terceiro turno, viagens internacionais, mil eventos e jantares com clientes. Ser bem-sucedida é incrível, mas o preço que se paga é altíssimo. 


Nem durante a gravidez considerada de risco (por ser de gêmeos), Andrea diminuiu o ritmo no trabalho (Foto: Divulgação)


Acho que o que mais dói quando se tem uma top carreira é que o tempo pra família é quase nulo. Via os meus filhos coisa de duas horas por dia. Se me sentia culpada? O tempo todo! Mas sou de uma geração que aprendeu que a mulher tinha que ser independente a qualquer custo e que o trabalho árduo era o único caminho pro sucesso. Tinha esses valores tão incrustados em mim que mantive a rotina frenética até durante a gravidez, considerada de alto risco, já que era gemelar e eu tinha 37 anos. Os gêmeos, frutos de uma fertilização in vitro, nasceram prematuros e ficaram 28 dias na UTI. Quase morri de felicidade quando eles puderam ir pra casa. Lá, ganharam peso e tamanho, e voltei ao serviço no final do terceiro mês – dali em diante, sempre contei com a ajuda de ótimas cozinheiras e babás, além do Natan, que é um supermarido. Como ele é advogado, tem uma agenda flexível e mais tempo pras crianças.

Bom... Mesmo reduzindo o ritmo e tentando de tudo, o fato é que eu não estava mais feliz no trabalho. Era hora de encarar a realidade: já havia construído o meu legado e aquela vida já não me bastava mais. Precisava me reinventar, sabe? Adquirir novos conhecimentos, quem sabe começar uma outra carreira... Com isso, parei, fiz as contas e comecei a me planejar. Em outubro de 2014 (acho até que aguentei bastante!), comuniquei aos chefes a minha decisão de me desligar da empresa. As reações foram as mais diversas, da surpresa à raiva, mas segui decidida e segura da minha decisão. No dia 5 de janeiro de 2015, dei meu adeus definitivo. Hoje, com 46 anos e orgulhosa da minha coragem, finalmente aceitei que não sou uma máquina. Sou de carne, osso e emoções e tenho apenas duas certezas na vida: não quero mais ser executiva e quero ter tempo pra mim. Continuo com a minha psicóloga na tentativa de me conhecer melhor e achar uma nova carreira. Até lá, estou fazendo cursos de culinária, fotografia e ioga, e em breve começo o estágio em uma floricultura. Adoro poder levar meus filhos ao cinema à tarde. É como dizia o poeta italiano Torquato Tasso: “Perdido é todo tempo que com amor não se gasta”.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Um homem só, um homem preso e um homem livre

Um “homem só” não existe.

Todo os homens estão acompanhados por tudo que lhes trouxe até ali, cercados por tudo que "construiu" o “ali” onde ele esta. Acompanhados por todos que lhe estimularam durante sua vida e também por todos que lhe podaram em seu passado, todos que lhe negaram e todos que lhe deram suporte, todos cuja a presença ou a ausência o tornaram único e possível de estar ali. Um "homem só" é aquele que não percebe a tudo que esta ligado. É um engano comum. Não é difícil corrigir este engano.

Fazendo uma pequena auto-análise percebemos vários instantes em nossas vidas que se tivesse ocorrido apenas mais apoio “nisso” ou "naquilo" já seriamos uma pessoa diferente. Olhando com mais cuidado veremos que se fossemos menos estimulado em determinados comportamentos e atitudes certamente seriamos pessoas ainda mais diferentes. Se tivéssemos mais oportunidade para “outro tanto” faríamos tudo diferente... Fatalmente somos consequência de um universo de estímulos e ausências. Não somos plenamente “livres”. Percebendo que tudo esta ligado as “causas” que nos deram “condição” de estar e ser como estamos e somos, nossa interpretação limitada da realidade nos suscita um terrível problema: “Estamos irremediavelmente “preso” a tudo que nos condicionou???


Felizmente não.

O homem não é limitado pelas causas e condições. Apesar de ser esta a primeira impressão que se possa ter esta não é a única resposta diante de uma realidade de causas e consequências como a nossa.

Todo o homem nasce no mar de causas e consequências. Mas as “condições” são como o ar e a gravidade na vida de um pássaro por exemplo. A “consciência” de um homem é como as asas de um pássaro diante das condições ou ventos que a vida lhe apresenta.

Você não nasce livre, mas se é potencialmente livre.

Assim como um pássaro que nasce pesado na terra e preso a lei da gravidade e não se furta de aprender a voar um homem é um ser que nasce no carma e no mar de Samsara, mas potencialmente, pode viver o Nirvana.

Assim um homem que se vê “só” é como o pássaro que não percebe o vento e a tudo e a todos que esta inegavelmente ligado.


Um homem se vê “preso” é como um pássaro percebe apenas seu peso, o rigor do vento que lhe oprime. 

Um homem que estuda sua mente é como um pássaro que explora as utilidades de suas asas.

Um homem  iluminado é um pássaro que plana nas alturas sobre as intemperes.

Abramos nossas asas. Sintamos o vento. Sigamos.

domingo, 30 de julho de 2017

Domingo, Porto Alegre, um dia normal de 2017e Rodrigo Hilbert

Domingo, Porto Alegre, um dia normal de 2017.
Hoje, depois servir o café pra minha filha, arrumar as camas, lavar louça, dar de comer aos cães, varrer a área eu fui organizar umas coisas pro almoço que eu queria prontas antes de iniciar o almoço pois queria ler um pouco e a Kiki tinha temas de férias para fazer e precisaria de ajuda... O sol estava bacana então montei uma mesa para ela estudar na rua próximo da churrasqueira, entre as árvores. Poderia fazer o almoço e dar toda a atenção que ela precisasse. Dona patroa teria de trabalhar até a uma... então quando chegasse estaria tudo pronto.
Então escolhi a lenha para o churrasco. Lenha que separei das “podas” que eu mesmo fiz nas árvores do pátio, queria um leve aroma de laranjeira na carne... Separei a linguiça artesanal (a de ervas finas e queijo) uma fraldinha e os legumes da salada, que pegamos na feira orgânica de Sábado, salguei as carnes e arrumamos a mesa do almoço. Kiki foi fazer os exercícios de matemática e eu fui ler sentado junto a churrasqueira.
E eu não sou Rodrigo Hilbert.
Não somos Rodrigo Hilbert e Fernanda Lima, estamos mais para Eduardo e Mônica (segundo a Lê estamos mais para Eduard”a” e Mônic”o”, mas é muito piada interna, então deixa passar), e não é para ser diferente.
Me chamou a atenção o nº de amigas e conhecidas da Sí que falam que eu sou um Rodrigo Hilbert... e falavam como um elogio... quando não deveria ser.
Rodrigo Hilbert é um cara diferente por vivermos em um tempo que ser egoísta e narcisista é o ideal.
Este é o problema. Rodrigo Hilbert vive como qualquer qüera minimamente educado do país deveria ser.
A “mistificação” de caras como Rodrigo Hilbert mostra o grau de estupidez do homem médio do país. E esta devia ser a preocupação de todas as mulheres.
Porque o “normal” é um homem que é homem e não tem problema em passar roupa, não fica “#chateado” pra lavar uma louça, que não faz teatro quando vai pra cozinha, que não tem problema em cerzir uma roupa e sabe que é natural cuidar e educar os filhos.
Se a mulherada está surpresa com caras tipo Rodrigo Hilbert deviam parar de valorizar os caras do “Camaro amarelo”... os boys da balada com colar de ouro que quer "sarrar" "novinha" e acha legal chamar mulher de cachorra... Parar de valorizar o cara mais preocupado com ostentação do que ser uma pessoa.
Cara que ostenta não precisa “ser”. Basta “PARECER”.
Rodrigo Hilbert é o cara que é “CONSEQUÊNCIA” de uma cultura de “ser”, educado para valorizar e CUIDAR da mulher dele e dos filhos.
Educado para ser HOMEM.
Simples assim.A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e comida

segunda-feira, 24 de julho de 2017

zendo brasilia - meditação Zen Budista: Não dê ouvidos às palavras indignas ditas pelos ...

Não dê ouvidos às palavras indignas ditas pelos outros. Não se preocupe com aquilo que foi realizado ou não realizado pelos outros. Observe apenas as suas próprias ações e omissões.

(O Dhammapada)

VISÃO ROMÂNTICA VS. DECEPÇÃO DIÁRIA POR Judith Simmer-Brown

Postado originalmente em Buda Virtual
Com a meditação nós reduzimos nossas fantasias e vemos a vida como ela realmente é. Então algo mágico acontece. 
Judith Simmer-Brown diz que é exatamente o que acontece nos nossos relacionamentos.


Amarga, amarga minha dor deve ser,
E nunca, nunca meu coração deve desistir
Em seu enorme e esmagador sofrimento por ela,
Nem uma esperança passageira me é dada
De felicidade ainda que doce, ainda que boa.
Uma grande alegria pode causar atos de bravura em mim.
Eu nada farei; tudo que quero é ELA.

—Peire de Rogiers

O amor romântico, por mais maravilhoso que seja, é o sintoma inicial de mal-estar cultural, a neurose principal da civilização ocidental

Por amor romântico quero dizer aquele que concentra no amado como um objeto de paixão, devoção e fixação. A pessoa amada torna-se a resposta para todos os problemas da vida, a fonte de toda nossa felicidade, e potencialmente, a fonte de todos nossos males. Mas, se formos honestos consigo mesmos, podemos ver que o amor romântico é um amor profundamente infeliz, viciado na miséria e sofrimento, coberto em fantasia e separação.

O amor romântico tornou-se um tipo de religião na civilização ocidental. Em seu livro de referência, O Amor e o Ocidente, Denis de Rougemont traçou o desenvolvimento do amor romântico na tradição cortês da Idade Média, descrevendo-o como uma heresia cristã. Ele menciona como nobres cristãos transferiram sua devoção do Deus inalcançável para a amada inatingível, envolvendo-a com traços idealizados, além de qualquer mulher mortal. Ele alega que essa visão do amor romântico sobrevive até hoje; mesmo agora, uma das formas mais abrangentes e não reconhecida de teísmo é nossa vida amorosa. Nós transformamos o amado em um deus, e nos apaixonamos mais pelo amor que pela pessoa amada. Ao ser amado é dado um papel específico para que ele ou ela possa permanecer um deus.

Com a separação a fantasia do amado pode ser mantida viva. A realidade da pessoa não pode ameaçar a fantasia.

Quais são as características dos relacionamentos românticos? Primeiramente, o amor romântico desenvolve-se na separação. O amor impossível é o mais cativante — alguém que é casado com outra pessoa, alguém que vive numa cidade distante, ou em outro aspecto de proibição. A garota ou garoto da vizinhança não é um bom candidato para uma fantasia romântica, nem seus maridos e esposas. A separação torna o coração mais apaixonado e ardente, porque com a separação a fantasia do amado pode ser mantida viva. A realidade da pessoa não pode ameaçar a fantasia. Por essa razão, muitos recém-casados tornam-se rapidamente desiludidos sobre as realidades do cotidiano da vida de casado. O namoro foi tão emocionante, mas o casamento é muito real, muito rotineiro.

Uma vez que o romance se desenvolve na separação, é excitante, mas nunca sexualmente realizado. Se alguém estiver de fato sexualmente saciado, então o romance estará ameaçado. Frequentemente, o amante escolhe a opção mística do desejo, abandonando o parceiro sexual vivo e presente pela fantasia do amor inalcançável. Os casos de amor proibido são ardentes, mas dificilmente resultam em casamento.

Em segundo lugar, o amor romântico é tremendamente impessoal. Nós procuramos o nosso “tipo”— um intelectual, um atleta, uma loira estonteante. Nosso gosto pode tornar-se muito sutil, incluindo a maneira de se vestir ou o jeito de andar do ser amado. Mas estamos apaixonados por uma fantasia; a pessoa amada não está presente. Na verdade, até ajuda a pessoa não estar muito por perto, porque pode destruir a fantasia. Tememos que o amor possa tornar-se muito concreto.

Ao fazer do amado um deus, nós induzimos um senso de carência em nós mesmos. Essa é uma falta de completude, que se manifesta como um desejo insaciável. Nos sentimos inadequados e desamparados sem um amor. Quando fazemos do amado um deus nós nunca podemos nos juntar a ele. Ficamos presos numa situação de aflitivo desejo, de carência e insegurança. É por isso que Rougemont chamou o amor romântico de heresia cristã; a paixão significa sofrimento, e desviamos nossa devoção para uma fantasia, que nos aprisiona para sempre na infelicidade.

O amor romântico glorifica a infelicidade.

Há um desejo pela morte no coração do amor romântico. Na mitologia clássica e na literatura, uma pessoa só possui completamente o ser amado após a morte — e vemos isso diariamente sobre brigas domésticas nos jornais. O desejo de união com o amado é a busca por uma junção, e qualquer coisa no caminho pode atrapalhar a fantasia.

Essa é a característica mais difícil de admitir: o amor romântico glorifica a infelicidade. A dor da paixão romântica é algo que achamos maravilhoso. Isso fica claro nos entretenimentos como filmes, novelas, televisão, balé, ópera e peças teatrais. Nos entretemos com a deliciosa dor de uma história romântica, e essa dor nos faz sentirmos tão vivos, tão reais, e tão convencidos do valor do amor romântico.

Quando examinamos isso cuidadosamente, podemos sentir o perigo de um culto, que glorifica a infelicidade. A tradição Shambhala fala do conceito do pôr-do-sol, que exalta os aspectos mais degradados da natureza humana e glorifica a morte. O conceito do pôr-do-sol se fixa na miséria e ignora a dignidade humana; se alimenta da tragédia e repreende o coração comum. A tradição Shambhala observa que o conceito do pôr-do-sol é uma abordagem desnecessária e inadequada para a vida humana. Ele prejudica nossa inteligência básica e integridade, e nos priva de vivermos plenamente a vida. O amor romântico é a epítome do conceito do pôr-do-sol na nossa cultura.

Então, que escolha nós temos? Nós percebemos quão infeliz o amor romântico é, mas qual outra opção existe? Todos nós experienciamos a forma como se inicia um relacionamento romântico, e as subsequentes decepção e desilusão. Nós dizemos que nos apaixonamos. Começamos a sentir a falta de sentido da fantasia, e vemos o ser amado como um estranho ou mesmo como um inimigo. Nos sentimos tão solitários e magoados.

Mas a desilusão é simplesmente o lado negativo do amor romântico. Em ambos casos estamos tão envolvidos com nossa própria fantasia que nunca realmente olhamos para a outra pessoa. Não vemos a pessoa pela qual nos apaixonamos; não vemos a pessoa com a qual terminamos o relacionamento. Ambas situações são impessoais. Marge Piercy descreve isso no seu poema “Canção-simples”:

Quando nos dirigimos a alguém nós dizemos
você é como eu
seus pensamentos são meus companheiros
palavra coincide com palavra
como é fácil ficar junto.
Quando nós deixamos alguém nós dizemos
que estranho você é
não conseguimos conversar
nunca estamos de acordo
como é difícil, penoso e exaustivo ficar junto.
Nós não somos diferentes ou parecidos
mas cada estranho em seu próprio corpo
envoltos em pele, estendendo mãos desajeitadas
e amar é uma ação
que não podemos sobreviver
a mão aberta
o olho aberto
a porta do coração aberta.

A desilusão é o lado mais positivo da moeda porque ocorre quando nossas ambições e fantasias sobre o relacionamento desmoronam. A desilusão pode ser o início do verdadeiro relacionamento. Há um tipo de perda da inocência na desilusão, que pode levar à admiração do amado por quem ele é — além da fantasia.

Manter-se na desilusão requer uma certa coragem, pois nos achamos isolados. Muitas vezes é o nosso medo da solidão que nos leva a procurar seriamente por um relacionamento; nós precisamos de alguém, qualquer um, para nos sentirmos seguros, estáveis, vivos. E aqui estamos de novo, sozinhos e desolados.

Começamos a achar que ninguém pode afastar nosso medo da solidão, já que esse é um sentimento tão familiar. Nossa solidão sempre vai surgir; mesmo o melhor relacionamento acaba, através da morte ou transformação. Quando valorizamos nossa solidão, ela se torna tão agradável. Quando sentimos e reconhecemos a solidão como base para todos nossos relacionamentos, surge uma enorme liberdade. Mas claro, isso não garante nada sobre o relacionamento em si.

Quando a solidão e a desilusão despertam em nós, o relacionamento pode ter o espaço para começar. Há um tremendo risco, porque não sabemos realmente para onde o relacionamento está indo. Tanto pode haver bons momentos, como pode haver maus momentos. O que acontece, porém, é que começamos um relacionamento com a pessoa. Podemos começar a ver o ser amado como alguém distinto de nós, e sentimos solidão no relacionamento. Anteriormente, o romance preenchia os vazios da nossa vida e nos fazia companhia. Nos sentíamos completos porque nossa fantasia preenchia todas nossas carências, ou assim imaginávamos.

Mas quando começamos a realmente ter um relacionamento com alguém, existem lacunas, existem necessidades não atendidas. Esse é o alicerce para o relacionamento. Quando há essa característica de separação e sensatez, uma química muito mágica pode surgir entre duas pessoas. É imprevisível e incerto, e não segue as orientações místicas para o amor romântico.

Quando começamos a ver a outra pessoa, surge uma nova oportunidade de um romance de uma maneira saudável. A própria distinção do ser amado pode nos atrair. É fascinante o que faz meu marido ficar bravo, o que faz ele rir. Ele realmente gosta de jardinagem, e odeia fazer compras. Um fascínio contínuo pode florescer, porque a outra pessoa está além dos nossos limites de expectativa e conceituação. Esse fascínio pode incluir momentos de depressão, desânimo e resignação. Bem como incluir momentos de bom humor, alegria e admiração. Mas isso tudo é palpável e vívido. Mesmo enquanto estamos intoxicados com a presença contínua da outra pessoa, nós somos assombrados e envoltos pela nossa própria solidão.

E, talvez surpreendentemente, exista uma possibilidade de paixão ilimitada quando você não está tentando encaixar o outro em um papel. Esta pode ser uma paixão feliz, porque não está tentando manipular o amado para preencher suas carências; é uma paixão que pode incluir a sexualidade sem medo de intimidade. Existe também uma vertigem causada por uma paixão de altitude mais elevada, porque a própria solidão permanece e é uma situação tão inescapável.

Quando você vê o relacionamento além da desilusão, você se relaciona com um mundo notavelmente vívido. Seu companheiro torna-se um símbolo ou representante de todos os cosmos. Quando ele ou ela fica bravo e diz “não”, você está realmente recebendo uma mensagem do universo. Quando dificuldades ou estresses acontecem, são muito significativos e devem ser trabalhados. Tudo que acontece no seu relacionamento pode ser uma mensagem do mundo em geral.

Quando nos libertamos da manipulação, os relacionamentos são essencialmente arriscados. Não temos controle sobre eles.

Parece muito mais seguro estar romanticamente envolvido. Mas se estamos, nunca podemos nos afastar da nossa consciência. Sempre estaremos envolvidos com nossos conceitos sobre o amor romântico. Desilusão é a perda da inocência. E essa perda pode na verdade nos despertar, se estivermos dispostos a continuar nesse cenário. Há uma falta de escolha que cresce quando você admira a outra pessoa por quem ela é e desiste de tentar encaixá-la na imagem da sua fantasia.

Quando nos libertamos da manipulação, os relacionamentos são essencialmente arriscados. Não temos controle sobre eles. Em um relacionamento saudável, você tenta apoiar a bondade e a dignidade da outra pessoa. Você não permite que eles acobertem a mesma situação de novo e de novo; você desiste do sentimento de traição se eles fizerem o mesmo com você. Você se dispõe a ser um lembrete suave de como as coisas são, e permite que o sejam também. Mas não há garantias sobre seus respectivos papéis.

Devemos cortar o amor romântico das nossas vidas? Claro que não. Estamos imersos em nossa cultura, e temos nossas neuroses para trabalhar. A forma inteligente de trabalhar com o amor romântico é experimentá-lo integralmente, começando com a paixão romântica, e então experienciar o desapontamento e continuar a partir daí. Devemos compreender detalhadamente o que estamos fazendo, estar conscientes da nossa tendência à ilusão quando estamos “apaixonados. ”

Existe uma energia extraordinária na nossa paixão. O amor romântico é o início da compreensão da natureza do relacionamento. Através dele criamos coragem de pular, e uma vez que estamos no oceano, aprendemos a nadar. Sem o amor romântico talvez nunca tivéssemos saltado.




SOBRE JUDITH SIMMER-BROWN

Judith Simmer-Brown é Professora Honorária de Estudos Religiosos e Meditação na Universidade Naropa e professora sênior de Budismo na tradição Shambhala.







Texto traduzido por Tamyres Bertanha do original em inglês publicado em Lions Roar disponível aqui →

Bossa Zen: Cuidado com o que diz

Bossa Zen: Cuidado com o que diz

Anda Atento e respirar conscientemente!




O andar atento e o respirar conscientemente 
ajudam a trazer a mente de volta para o corpo,
para que possamos estar verdadeiramente presente 
no aqui e agora 
e nos tornarmos realmente vivos.
Praticar a consciência pode ser uma espécie de ressurreição, 
de repente, você se torna vivo novamente.

~Mestre Thich Nhat Hanh~

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Podemos sofrer menos com a vida SE entendemos que ela muda





Tentamos fazer com que as coisas fiquem do jeito que estão, nos agarramos à ideia de permanência. Normalmente, somos muito resistentes à ideia de mudança, em especial de mudança naquilo que prezamos. Claro que gostamos de que as coisas mudem, quando se trata de algo de que não gostamos; mas, quando é algo de que gostamos, seguramos.

Existem vários níveis de mudança, é claro.

Existe a mudança grosseira – o clima muda constantemente, os mares mudam o tempo todo, a terra está mudando. Com o tempo, tudo se transforma por completo.

Existe a mudança mais sutil em nossa vida cotidiana, na qual sempre estão acontecendo coisas. Relacionamentos, lares e bens vêm e depois os perdemos. Nosso corpo muda. No princípio, somos seres minúsculos, indefesos e vulneráveis, e então crescemos, amadurecemos, envelhecemos e morremos.

E existe a mudança momentânea, ainda mais sutil. Na verdade, nada permanece igual por dois instantes de tempo. A vida é como um rio, sempre fluindo. Heráclito, o filósofo grego, disse que nenhum homem pisa no mesmo rio duas vezes. Mas a verdade é que o mesmo homem nunca pode pisar duas vezes no rio. Tudo está mudando. Por isso, sofremos.

A vida é insatisfatória, porque está sempre mudando. Não tem o cerne sólido que sempre esperamos agarrar. Queremos segurança e acreditamos que nossa felicidade reside em estarmos seguros. E assim, tentamos tornar as coisas permanentes.
Essa escultura, chamada de "Embrance", foi criada pelo The Pier Group para o festival Burning Man de 2014. A escultura foi completamente queimada. 


Escolhemos casas que parecem muito permanentes e então as mobiliamos. Investimos em relacionamentos que esperamos durarem para sempre. Temos filhos e esperamos que eles também possam consolidar essa ideia de identidade, de algo que seja constante. Temos filhos e amamos nossos filhos, de modo que nossos filhos nos amarão e isso será assim por muito, muito tempo, durante toda a nossa vida. Nossos filhos são a nossa segurança.

Mas não existe segurança nisso, porque a segurança é muito insegura. A verdadeira segurança provém apenas do conforto com a insegurança. Ficarmos à vontade com o fluxo das coisas, ficarmos à vontade ao estarmos inseguros, essa é a maior segurança, pois nada pode nos tirar do prumo.

Enquanto tentamos solidificar, parar o fluxo da água, represá-la, manter as coisas do jeito que elas são, porque isso nos faz sentir seguros e protegidos, estamos enrascados. Essa atitude vai direto de encontro a todo o fluxo da vida.

Tudo muda, de momento a momento, a cada momento. Até na física aprendemos que objetos que parecem sólidos e estáveis na verdade estão em estado de movimento constante. Os objetos não são estáveis, não permanecem fixos e imutáveis, embora nossos sentidos nos deem essa impressão distorcida.


Olhamos uns para os outros. Vejo você hoje. E amanhã, você parecerá o mesmo para mim. Mas você não será o mesmo. Tanta coisa aconteceu, mesmo em nível celular, ao longo desse tempo. Células crescem e morrem, elas estão sempre mudando. E nós também estamos sempre mudando na mente, de momento a momento, a cada momento.

Embora tentemos solidificar as coisas e mantê-las do jeito que sempre foram, não podemos fazer isso. É como aqueles velhos castelos. Construímos paredes sólidas muito espessas e pensamos que vão durar para sempre, que nenhum ataque jamais irá mudá-las. Mas é uma delusão.

Mesmo que tentemos segurar o rio de nossa vida, ele fluirá de qualquer maneira. Não podemos segurar o rio nos agarrando a ele. O jeito de pegar o rio é segurar muito de leve. Não é necessário sofrer. Quando sofremos, sofremos porque nossa mente é deludida e não vemos as coisas como realmente são. Temos medo, medo de perder, e sentimos dor quando perdemos. Mas a natureza das coisas é vir a existir, durar por um tempo e então acabar.


Nossa cultura considera a questão da perda muito difícil. Nossa cultura é muito boa em pegar. Nossa cultura de consumo, especialmente hoje em dia, é toda voltada apenas para pegar, pegar, pegar. Jogamos fora coisas que ontem mesmo estavam na moda, mas que não estão mais na moda hoje, para pegarmos alguma coisa nova.

Entretanto, não temos essa atitude em relação a nosso corpo ou ao corpo dos outros. Não achamos que nós também precisamos ser reciclados de tempos em tempos, mas somos. É irônico que em nossa sociedade todo mundo fale abertamente sobre sexo, que em outras sociedades é um grande tabu.

Contudo, em nossa sociedade o grande tabu é a morte.

Fui criada em uma família espiritualista. Minha mãe era espiritualista, e realizávamos sessões em nossa casa todas as semanas. Na minha casa a morte era um assunto diário, era um tópico sobre o qual falávamos com grande dose de entusiasmo e interesse. Não era mórbido. E nas poucas ocasiões da minha vida em que realmente pensei “Estou prestes a morrer agora”, a reação seguinte sempre foi: “Vamos ver o que acontece”. Creio que seja porque, quando eu era criança, a morte era um tema aberto.

Sou profundamente grata a isso, porque falar da morte em nossa sociedade geralmente deixa as pessoas desconfortáveis. Tanta gente tem medo da própria morte e da morte dos outros. Não aceitamos que tudo que vem a existir dura um tempo e depois acaba. Mas o ciclo é esse.


Tudo é impermanente. E o que nos causa dor é a não aceitação disso. Em nossos relacionamentos, vivemos divididos entre a esperança e o medo porque seguramos com muita força, com muito medo de perder.

Tudo está fluindo. E esse fluxo não é composto apenas por coisas externas. Inclui os relacionamentos também. Alguns relacionamentos duram um longo tempo, outros não – é assim que as coisas são. Algumas pessoas permanecem aqui por um longo tempo, outras partem muito rapidamente. É assim que as coisas são.

Todo ano, milhões e milhões de pessoas nascem e morrem. No Ocidente, nossa falta de aceitação é deveras espantosa. Não aceitamos que um dia possamos perder qualquer uma das pessoas que amamos. É muito comum sermos incapazes de dizer a alguém que esteja morrendo: “Somos tão felizes por ter tido você conosco. Mas agora, por favor,siga em frente, em uma jornada muito feliz e segura.” É essa negação que nos causa dor.

A impermanência não é de interesse apenas filosófico. É de interesse pessoal.

Somente quando aceitarmos e entendermos profundamente em nosso ser, que as coisas mudam de momento a momento e nunca param um instante sequer, só então conseguiremos soltar. E, quando realmente soltamos dentro de nós, o alívio é enorme.

Ironicamente, isso dá vazão a toda uma nova dimensão de amor. As pessoas pensam que se alguém é desapegado, é frio. Mas isso não é verdade.

Qualquer um que encontre grandes mestres espirituais, realmente desapegados, ficará impressionado com o afeto deles por todos os seres, não só aqueles dos quais gostam ou com quem se relacionam. O desapego libera algo muito profundo dentro de nós, porque libera aquele nível de medo. Todos nós temos muito medo: medo de perder, medo da mudança, uma incapacidade de simplesmente aceitar.

Desse modo, a questão da impermanência não é apenas acadêmica. Temos realmente que aprender a como enxergá-la em nossa vida cotidiana.

Na prática budista da atenção mental, de estar presente no momento, uma das coisas que primeiro impressiona é como as coisas estão constantemente fluindo, aparecendo e desaparecendo de maneira contínua. É como uma dança. E temos que dar espaço a cada ser, para que ele dance a sua dança. Tudo está dançando, até as moléculas dentro das células estão dançando.


Tornamos nossa vida muito pesada. Temos fardos incrivelmente pesados, que carregamos conosco como pedras dentro de uma grande mochila. Pensamos que carregar esse mochilão é a nossa segurança, pensamos que nos dá base. Não percebemos a liberdade, a leveza de simplesmente largar, soltar a mochila. Isso não significa abandonar os relacionamentos, não significa abandonar a profissão, a família ou a casa. Não tem nada a ver com isso, não é uma mudança externa. É uma mudança interna. É a mudança de deixar de segurar com muita força para segurar bem de leve.

Recentemente, estava em Adelaide, na Austrália, e alguém me deu uma tirinha de quadrinhos que mostrava como segurar coisas: o primeiro desenho era sobre segurar gentilmente, como ao segurar um pintinho; o segundo desenho abordava diferentes maneiras de segurar as coisas de modo hábil, com honra e respeito, mas não com força; e o último desenho dizia, “Depois disso, temos que soltar. Mas isso é uma coisa totalmente diferente – vamos tratar dela mais tarde!”

Sim, temos que saber como segurar as coisas de leve, e com alegria. Isso nos permite ficar abertos ao fluxo da vida. Quando solidificamos, perdemos muito.

Envolvidos na relação com nosso parceiro, com nossos filhos e com outras pessoas nesse mundo, podemos solidificá-los ao atribuir um papel a eles. É como nós os vemos. Depois de um tempo, não experienciamos mais a pessoa real do momento. Vemos apenas a nossa projeção da pessoa. Embora ela seja completamente única, e possa estar de fato se transformando e mudando por dentro, não enxergamos isso, porque tudo o que vemos é o nosso padrão. E então as pessoas se cansam umas das outras, ou no mínimo ficam meio que trancadas em um relacionamento que perdeu a vitalidade original.

Como eu disse, isso é porque não experienciamos o momento atual, experienciamos apenas a nossa versão dos eventos.


Quando olhamos alguma coisa, vemos tal coisa por um momento, mas imediatamente nossos julgamentos, opiniões e comparações entram em cena. Tornam-se filtros entre nós e a pessoa ou o objeto que olhamos, e esses filtros nos distanciam cada vez mais do que é. Restam nossas próprias impressões e ideias, mas a coisa em si se foi. Isso é especialmente verdadeiro quando nosso objeto são outras pessoas.

Todos nós sabemos que, quando as pessoas estão relatando um acontecimento, é quase como se cada uma estivesse contando uma história diferente. Todos nós passamos pela experiência de ouvir alguém contar um acontecimento que compartilhamos e pensar algo do tipo: “Não foi assim que aconteceu!”, “Não disseram isso!”, ou “Não foi nada disso, você não entendeu coisa nenhuma!”. Em outras palavras, tudo se torna incrivelmente subjetivo.

Não vemos a coisa em si, vemos apenas a nossa versão. E onde isso se reflete de modo mais claro é em nossa resistência ao fato de que todos nós estamos mudando de momento a momento.

É como se o tapete debaixo de nossos pés fosse continuamente puxado, e não conseguíssemos suportar isso. “Esse tapete vai ficar exatamente onde eu quero que ele fique. O mesmo tapete debaixo dos mesmos pés.” E porque isso jamais vai acontecer, já que, por mais que fiquemos nos iludindo, nunca poderemos ter as coisas exatamente do mesmo jeito, sentimos essa dor.

É muito importante entender que nossa felicidade e paz mental não provêm da busca de segurança na permanência e na estabilidade. Nossa felicidade vem de encontrarmos segurança na natureza sempre cambiante das coisas.

Se nos sentimos felizes e, por conseguinte, somos capazes de flutuar na corrente, nada pode nos aborrecer. Porém, se construímos algo tão rígido, querendo que não mude nunca – um relacionamento, nosso emprego, qualquer coisa, quando o perdemos, ficamos totalmente fora do prumo.

Em geral, as pessoas pensam que a mudança constante das coisas é algo assustador. Mas, quando realmente entendemos que a verdadeira natureza das coisas de fato é fluir, mudar, aí ficamos completamente equilibrados, abertos e receptivos. Quando tentamos represar o fluxo, a água fica muito estagnada. Temos que deixar as coisas fluírem. Aí a água estará sempre fresca e límpida.

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Nota do editor: este texto é um trecho do livro No Coração da Vida, de Jetsunma Tenzin Palmo, uma das mais conhecidas professoras da prática budista. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor no PapodeHomem.
É parte de uma parceria nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano apoiado por nós. 

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Para ler mais:

Qual a diferença entre amor romântico e amor genuíno (que passamos a vida inteira sem nos dar conta)?, de Gustavo Gitti

Podemos usar nossas próprias aflições mentais para cultivar uma mente mais saudável?, de Yongey Mingyur Rinpoche

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