sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Martin Heidegger sob o Olhar Budista

Martin Heidegger foi um filósofo alemão habitualmente estudado no existencialismo. Sua obra tem sido considerada uma das mais importantes do século XX, e na sua maior parte é dedicada à questão do Ser, como é evidente no seu trabalho mais conhecido, Ser e Tempo, embora tenha abordado também questões relativas à critica do significado (hermenêutica), à política, aos mitos gregos e à poesia. 
Sua influência chegou inclusive à Tailândia, onde o monge budista e professor universitário Bhikku Maha Mani chegou a entrevista-lo em 1963 para o canal SWR.  
Entre várias questões pertinentes Heidegger nos adverte para o perigo de convertermo-nos em “máquinas” obedientes.



Postado originalmente aqui: Olhar Budista Wordpress


Bhikku Maha Mani: Ao longo de décadas você tem reflectido sobre a essência do ser humano, que compreensão você obteve?

Martin Heidegger: A experiência decisiva do meu pensamento, e o que significa ao mesmo tempo para a Filosofia Ocidental, isto é, a contemplação sobre a história do pensamento Ocidental me revelou, que no pensamento contemporâneo uma questão nunca foi feita, a saber, a questão do ser. Esta questão é importante, porque no pensamento Ocidental a essência do ser humano é determinada em sua relação com o Ser, isto é, existe em correspondência ao Ser. Isso significa que o ser humano é este correspondente, esta essência, que tem uma linguagem. Diferentemente, penso eu, dos ensinamentos Budistas, o pensamento Ocidental criou uma distinção essencial entre os seres humanos e os demais seres vivos, plantas e animais.

O ser humano se distingue por sua linguagem, isso significa que ele possui um conhecimento em relação ao Ser. E esta questão do Ser não foi colocada na atual história do pensamento Ocidental. Ou, para falar mais claramente O Ser em si tem sido escondido dos seres humanos. E é por isso que agora temos que fazer esta questão para obter uma resposta sobre o que e quem é o ser humano.
Você acha que deveríamos criar uma atitude nova fundamental em relação à vida, ou devemos aprofundar os ensinamentos actuais da religião?

Eu acho que pela minha resposta à sua primeira pergunta já deixei claro que um novo modo de pensar é necessário. É especialmente necessário, porque a questão não pode ser interrogada pela religião. Também é necessário interrogar esta questão, porque a relação do Ocidente com o mundo inteiro já não é transparente, mas confusa em parte por causa das clareiras das crenças, da igreja, pela filosofia, pela ciência e do estranho facto de que agora, no mundo moderno, a ciência é considerada como se fosse algum tipo de religião. Eu vou esclarecer melhor esta frase mais tarde.

Por que você não tenta compartilhar seus pensamentos com as pessoas através das mídias modernas, como rádio e TV?

A tarefa que carece de pensamento hoje, como eu a entendo, é nova de um modo que requer um novo método de pensamento, e este método só pode ser alcançado na conversa imediata de ser humano para ser humano, e pela longa prática e exercício num sentido de uma observação do pensamento. Isso significa que este modo de pensar, a princípio, é apenas compreensível para poucas pessoas. Porém, através de diferentes aspectos da educação, pode ser comunicado aos outros. Vou dar-lhe um exemplo. Hoje toda a gente sabe como usar um rádio e um aparelho de televisão sem compreender as leis físicas que os governam, sem compreender os métodos e pesquisas necessárias dessas leis. Esses métodos, necessários para a pesquisa sobre essas leis, em seu conteúdo substancial, são compreendidos apenas por cinco ou seis físicos.

É o mesmo que acontece com esse pensamento. Em primeiro lugar, esse pensamento é tão difícil que só poucas pessoas podem ser educadas nele. Mas isso pode levar a mal-entendidos, que essas eram pessoas extraordinárias. No entanto, a verdade é que todo ser humano, enquanto for um ser pensante, poderá realizar este pensamento. Mas em nosso sistema de ensino atual e de acordo com a nossa história, apenas poucas pessoas irão cumprir o requisito para este pensamento.
Há um ponto de encontro entre Tecnologia e Filosofia?

Para a sua pergunta, eu diria que “sim”, há de facto uma relação muito essencial. Ela é dada no surgimento da tecnologia moderna a partir da Filosofia. Foi na Filosofia Moderna que pela primeira vez foi estabelecido o princípio de que só o que eu posso claramente, ou seja, matematicamente saber, é real.

Há uma frase muito famosa do físico alemão Max Planck, que diz: “Real é só o que se pode medir”.
Este pensamento de que a realidade só é acessível ao ser humano, desde que seja mensurável no sentido da física matemática; este pensamento domina toda a tecnologia. E, na medida em que isso foi pensado inicialmente por Descartes, o fundador da Filosofia Moderna, a relação entre Filosofia e tecnologia moderna torna-se bastante clara.
No Ocidente, pessoas sem religião têm sido muitas vezes identificadas como comunistas, outras pessoas, contudo, que vivem em conformidade com os preceitos religiosos, estão sendo chamadas de loucas. O que você pensa sobre isso?

As asserções de que pessoas sem religião são comunistas e pessoas com religião são loucas, são duas acusações que, creio eu, podem ser esclarecidas se refletirmos sobre: o que se entende por religião aqui? Religião significa, como a palavra mesmo diz, uma ligação de retorno a poderes, forças e leis que substituem a capacidade humana. Daí você pode até mesmo falar de uma religião ateísta, como é caso do Budismo, que não concebe Deus e apesar disso é uma religião, pois contém uma ligação particular em si.

Gostaria também de dizer que tais pessoas enquanto comunistas têm uma religião, a saber, a crença na ciência. Eles acreditam incondicionalmente na ciência moderna. E essa crença incondicional, quer dizer, a confiança na certeza dos resultados das ciências, é uma crença, e, de certo modo, é algo que está além do ser humano, portanto é uma religião. Eu diria que nenhum ser humano está destituído de religião, e que todo ser humano está de alguma forma além de si mesmo, ou seja, louco.
Nós deveríamos abolir a religião e a filosofia que apesar de suas existências multimilenares, nunca influenciaram a vida humana como demandaram, e por que a filosofia e a religião parecem ser contraditórias?

Não podemos e não devemos abolir o pensamento e a crença, porque em sua longa jornada não alcançaram o patamar que objetivaram chegar. Nós não podemos abolir o pensamento e a crença, porque a essência humana é finita. Porque em sua essência o homem é sempre compelido a tentar novamente. E, especialmente, neste momento, eu diria, voltando à sua primeira pergunta que uma reflexão sobre o que é o ser humano, é necessária agora com o perigo que o homem está à mercê da tecnologia de que um dia seja controlado como uma máquina.

Você também fez outro comentário, relacionando ao seu país. No qual você disse que o seu país e as pessoas nele pertencem aos países subdesenvolvidos. Se alguém vos fala em subdesenvolvimento, alguém tem que perguntar para que fim o desenvolvimento foi pensado. De acordo com o moderno entendimento Europeu e Americano, o desenvolvimento é, em primeiro lugar, uma questão tecnológica. A partir desta lógica, eu diria que seu país, por causa de suas tradições antigas e contínuas, está altamente desenvolvido. os norte-americanos, por outro lado, com todas as suas tecnologias e bombas atómicas são subdesenvolvidos.
Há alguma forma de harmonizar as pessoas e poderá esta forma ser traduzida para situações globais reais, como no caso Berlim Oriental e Ocidental?

Esta questão é tão abrangente que primeiramente temos que diferenciar entre as condições políticas para uma possível unidade e as condições humanas emocionais à reunião dos seres humanos. Para ambas as condições, eu diria que, por causa de toda a nossa situação histórica. E por causa da separação dos seres humanos em religiões diferentes, filosofias diferentes e diferentes relações com a ciência. Não existe hoje em dia terreno comum para o entendimento simples e imediato.

Eu acho que nós precisamos diferenciar entre um país Europeu com esta história e passado, e um país onde você reside. Desse modo eu diria que se há alguma possibilidade ao entendimento num futuro próximo isso só pode acontecer se, independentemente de condições políticas, se os seres humanos de todas as partes encontrarem auto-consideração. Mas esta auto-consideração, como já mencionei em outras perguntas suas, tornou-se difícil, isso não é só na Alemanha, mas por toda a Europa em geral. Não temos nenhuma relação clara, simples e comum com a realidade e com nós mesmos. Esse é o grande problema do mundo Ocidental, e parte da razão da confusão de opiniões em todas as diferentes áreas.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A NOÇÃO DE “MATERIALISMO ESPIRITUAL” COMO DESCULPA Padma Dorje




O ego pode se apropriar até mesmo das ferramentas que mais diretamente surgiram para enfrentá-lo.

Quando cursei filosofia, reli Walden, de Thoureau, após muitos anos. Não me entendam mal na avaliação que segue no segundo parágrafo: a prosa de Thoureau é extraordinária, e o experimento todo, no seu contexto espaço-temporal, é também algo digno de respeito. Os transcendentalistas, como já escrevi em outros textos, são a mais requintada mistura do espírito maverick estadunidense com o iluminismo e o começo daquele cosmopolitanismo que viria a desembocar no multiculturalismo – que evidentemente é uma boa coisa, que permite, por exemplo, que ocidentais como nós admiremos e pratiquemos uma tradição asiática como o budismo. E, claro, o experimento de Thoureau também era uma reação dramática contra o status quo, que em alguns sentidos vale até hoje: um sujeito que vai para o mato, em plena revolução industrial, para ver o quanto mesmo ele precisa trabalhar, quando não está ocupado em agradar as expectativas dos outros. Fantástico.

Porém, quando reli este livro, após alguns anos de prática do darma, em particular do vajrayana, o que se salientou foi o reconhecimento de uma perspectiva de autocentramento, ou mesmo uma mentalidade de pobreza em Thoureau – isto é, uma perspectiva no fundo, autolimitadora, e não libertadora. Com relação ao autocentramento, é fácil entender, o espírito independente, por vários aspectos positivos que tenha, tende ao individualismo, e Thoureau, ninguém irá negar, se especializava em “fazer as coisas a seu modo”, acima de qualquer advertência ou feedback. No caso dele isso pode não ter produzido exatamente um asshole (babaca? cretino?), como muitas vezes produz, mas certamente havia um pouco da mentalidade mesquinha, da economia dos recursos próprios para o autodesenvolvimento, sem olhar tanto para as necessidades dos outros. Mesmo considerando que ele estivesse dedicado à escrita, e com isso, ansiasse por leitores, e tenha beneficiado muitas pessoas com sua narrativa.

Ainda assim, é claro que Thoureau não tinha em mente qualquer tipo de comprometimento perante leitores, e nem imaginaria algo assim. Sua noção radical de liberdade incluía uma visão de compaixão, mas era uma compaixão, se pode dizer, em certo sentido restrita, pequena. Essa perspectiva também existe na tradição budista, e é relativamente válida.

Refletindo sobre isso e sobre muitas atitudes que vejo na sanga incipiente, reconheci que o espírito individualista (do qual certamente os transcendentalistas não são culpados, mas que ampliaram e divulgaram como ninguém) unido a uma noção distorcida de materialismo espiritual, junto com os sempre presentes estereótipos, tanto sobre o que é um budista, e sobre a própria condição, quanto sobre a condição do “darma no ocidente”, leva muitas vezes a um empobrecimento da perspectiva e da prática budista.

“Materialismo espiritual” é um termo cunhado por Chögyam Trungpa Rinpoche – mestre consumado que era chamado pelo mais elevado título dentro do vajrayana, “rigdzin” (“vidyadhara”), isto é, alguém que detém o reconhecimento da natureza da realidade, além dos sonhos adventícios que incluem o próprio espaço e o tempo. O materialismo espiritual é apropriação da prática espiritual pela perspectiva mundana, para autoengrandecimento ou autojustificação, e inclui desde praticar a espiritualidade para sustentar uma imagem de “pessoa do bem”, até usar os ensinamentos para encontrar um “lugar no mundo”, no extremo na forma de uma carreira, mas no mínimo como identidade perante os outros, e como forma de inserção no mundo.

Porém, o sofisticado ensinamento sobre materialismo espiritual é muitas vezes rebaixado a uma condenação ao aspecto material ou formal da prática. Algumas vezes as pessoas dizem que determinados elementos da prática, especialmente rituais, ou a aquisição dos muitos apetrechos do vajrayana (sino, textos, roupas), configuram por si só “materialismo espiritual”; algumas pessoas chegam ao ponto de chamar de materialismo espiritual as tradicionais acumulações de milhares de mantras, ou de tempo de meditação e os retiros longos, que os praticantes tradicionalmente fazem no budismo tibetano.

Evidentemente, apetrechos e rituais elaborados podem ajudar a cristalizar uma “identidade de praticante”, que por sua vez, pode se tornar materialismo espiritual. Mas em si mesmos eles não são, de forma alguma, materialismo espiritual. Todos os métodos aparentes do budismo são uma manifestação da compaixão dos budas. A mentalidade empobrecida pode até gerar uma identidade de despojamento, que abre mão da prática formal, do professor, dos textos, da postura de meditação, dos votos, da perspectiva do refúgio, do convívio com a sanga, do estudo sistemático, e das oferendas de tempo, trabalho e dinheiro ao darma – e esse abandono todo, como também apropriação de um conceito budista (no caso o próprio “materialismo espiritual”) para a autojustificação, configura exata, justa e novamente apenas materialismo espiritual. Esse modo do materialismo se estabelece como apenas uma espécie de apego à noção do “não materialismo”, novamente uma forma de construir uma “identidade de praticante”. Agora uma identidade de isentão, budista de internet, ou mesmo “não praticante”, sem compromissos, de desgarrado ou despojado das formas, alguém que “renuncia ao próprio darma”, já que o darma exposto em termos qualquer estrutura possível seria apenas um dedo que aponta para a lua, e o que interessa é a lua, evidentemente. Taca fogo nesse dedo de uma vez, então!

Claro, porque a lua está sendo incessantemente reconhecida sem nenhum suporte relativo. Não sei nem porque usar a palavra “budismo” ou falar no assunto, então. Imagina se algo assim seria uma desculpa!

Em vez de uma compreensão aguda dos quatro pensamentos que transformam a mente (nascimento humano precioso, impermanência, carma e insatisfatoriedade inerente ao samsara), ocorre uma desqualificação de qualquer método sublime e testado pela linhagem em nome de uma sabedoria meramente nominal, isto é, uma ideia meio nebulosa de sabedoria que surge de ver uns vídeos e pensar alguns minutos, de forma não sistemática, sobre o assunto. Basicamente, um “insight de maconheiro”. Muito menos que um remendo mal feito (a metáfora usual para quem toma entendimento intelectual por realização), uma falta de honestidade para consigo mesmo, e para com a tradição budista inteira.

Os grupos e fóruns de budismo na internet estão basicamente cheios desse tipo de “realização espiritual”, tornando esses lugares basicamente as piores fontes sobre o budismo que existem. Essa perspectiva é ainda pior do que aqueles reformistas para a modernização do darma que já querem mudar tudo sem nem mesmo conhecer o darma com qualquer profundidade ou ter feito três dias de prática consistente, que são também bastante comuns!

Se as instituições budistas e a sanga como estrutura de sustentação do darma são negados como um todo, o que resta para os aspectos menores dos métodos específicos? Que dizer da mentalidade que abdica de qualquer baliza que signifique a consecução de uma prática – tal como a contagem de mantras – porque isso, porventura, pode se tornar um ponto de fixação? O fato é que a tradição, inclusive a tradição que Trungpa Rinpoche passou a seus próprios alunos, tem essas balizas: e a tradição tem embutidos inúmeros mecanismos para evitar que essas “metas projetadas” se tornem materialismo espiritual. Isto está previsto na prática, e em como se deve lidar com esses números (um aspecto, por exemplo, é que as acumulações são assunto privado, você não fala sobre elas, outro aspecto é a dedicação de mérito – a sua prática é uma oferenda). Uma pessoa que não se engajou em nenhum modo tradicional de prática e julga esses modos como contraproducentes está apenas fazendo afirmações frívolas.

Não há semana sem que uma citação do Dalai Lama falando de “excesso de ritualística” no budismo tibetano não passe pelo meu Facebook. No entanto me pergunto se essas pessoas conhecem a prática do próprio Dalai Lama, ou dos grandes praticantes ocidentais que receberam iniciações e orientação direta dele. Imagino realmente que, fora de contexto uma afirmação assim possa parecer uma liberação da estrutura aparentemente claustrofóbica do detalhismo tibetano. (A maioria das citações budistas que se vê são mal interpretadas devido a falta de contexto). Porém, o fato é que o que parece excessivo para alguns pode ser qualquer nível de ritual, até mesmo manter um altar, ou recitar votos de refúgio em voz alta.

Essa mentalidade de pobreza, ou “medo” do materialismo espiritual, pode levar ao que o budismo descreve como o “extremo do niilismo”. Nesse extremo, há uma indisposição, ainda que leve, com o aspecto relativo. Na perspectiva saudável, embora o aspecto relativo seja reconhecido como inteiramente sem fundamento, ele é completamente aceito sem nenhum tipo de má vontade. Embora não seja reificado – não seja levado a sério – ele não é em nenhum aspecto negligenciado. Isso implica, por um lado, as “obrigações” mundanas, com a “sociedade” (boletos!) e principalmente as pessoas que nos são próximas, e enfim com todos os seres – um pouco a contragosto de Thoureau, que não queria responder a ninguém, apenas à própria consciência – mas também implica dar prioridade à prática espiritual com algum nível de estrutura, ela também parte do aspecto relativo.

Nessa abordagem não há um aprisionamento ao relativo, mas um usufruto completo da perspectiva absoluta só pode ter como resultado uma boa vontade completa com o aspecto relativo, seja este mundano, seja espiritual.



Os Três Veículos

Embora isso não seja claro para muitas pessoas, o vajrayana não é uma escola, tradição ou linhagem – ainda que existam muitas escolas, tradições e linhagens que foquem o vajrayana. Nenhum yana é identificado como uma tradição, uma escola, ou uma linhagem – ainda que algumas vezes a nomenclatura “mahayana” seja usada mais amplamente dessa forma na literatura técnica. Algumas pessoas, ao serem perguntadas que tipo de budismo praticam, respondem “vajrayana” ou “budismo tibetano” – e embora ambas as respostas tenham problemas, num âmbito laico apenas a segunda resposta é aceitável. A primeira resposta passa a ideia de que o vajrayana é possível sem os outros yanas, o que é um absurdo. Além do que um praticante vajrayana, por discrição e para não soar arrogante, não afirmaria “eu pratico os métodos mais sofisticados do budismo”, que é o que “vajrayana” implica.

Claro, o “budismo tibetano” não é tibetano, mas uma mistura de vários budismos de origem indiana, e até um pouco da tradição chinesa, que chegaram ao Tibete. Dizer que se pratica o “budismo tibetano” pode informar um leigo, mas também não é, estritamente falando, justo com a tradição. Além disso, não devemos ver o budismo como inerentemente atrelado aos aspectos culturais ou de uma etnia. O budismo que os tibetanos preservaram tem aspectos culturais, mas todos os métodos têm sua origem nos ensinamentos do Buda, e na visão dos próprios tibetanos, eles vieram todos do Buda. Quando ocidentais dizem que o vajrayana é um budismo com elementos tibetanos ou hinduístas, eles afirmam tal coisa ignorando a própria tradição, que se reconhece e se valida como tendo sua origem integralmente no Buda. Você é curioso com o darma e toma refúgio no historiador, ou você toma refúgio no darma e é curioso com o historiador?

“Yana”, veículo, é um termo que surgiu para designar sucessivas interpretações ou perspectivas do ensinamento do Buda. Assim, o hinayana (“caminho estreito”), foca justamente a tal perspectiva da mentalidade de pobreza, e foi ensinado pelo Buda para seres peculiarmente “covardes” – no sentido de que eles não se acham capazes de um dia revelar qualidades que beneficiem cada um dos seres, mas definitivamente se acham capazes de beneficiar a si próprios, num sentido “supramundano”, claro. Melhor não pensar amplamente demais, e assim se perder em expectativas injustificadas, não é mesmo?

Algumas pessoas ficam extremamente chateadas ao ler uma descrição assim, porque elas acham que estamos falando de um grupo de praticantes determinado no espaço e no tempo, e que isso é uma crítica sectária. Ora, qualquer um que encare os ensinamentos budistas sem essa perspectiva (de se comprometer com a iluminação de todos os seres, e não apenas com a própria) é um praticante do hinayana, pertença a que tradição pertencer. O budismo indo-tibetano e as tradições mahayana em geral apenas usaram essa classificação para chamar a atenção para o fato de que há ensinamentos legítimos do Buda direcionados para essa perspectiva, e eles produzem resultado. A pessoa pode perfeitamente ter esse foco estreito e ainda assim o Buda, em sua grande compaixão, deixou uma infinidade de métodos que podem ser usados nesse contexto (nessa mentalidade meio Walden) e que produzem um resultado definitivo.

Porém, esse resultado definitivo produzido pelo hinayana no indivíduo não é idêntico à realização do Buda. A segunda perspectiva, o mahayana, é que, após muitas vidas de prática, alguém pode revelar todas as qualidades de um Buda – beneficiando assim a todos os seres sem exceção. Veja como já nessa mera descrição a pessoa que se fixa à noção de materialismo espiritual pode usar essa visão grandiosa para justificar uma escolha pelo hinayana. Ora, “budista não quer ser melhor que os outros”, certamente somos mais humildes que isso! Como somos humildes, não assumimos essas coisas de vastidão ou riqueza: a visão mais mesquinha possível é a realista, é a que vale! Lá fora as coisas não são bem assim, meu irmão. Não só eu só posso beneficiar a mim mesmo, como pensar que eu posso beneficiar os outros só pode ser uma extrema arrogância!

Nessa mentalidade, a pessoa não quer erguer o pescocinho e proclamar o yana descrito como “melhor”: essas nomenclaturas são apenas uma invenção desse pessoal para rebaixar os outros. Que ousadia desses mahayanistas ficarem dizendo que existem práticas espirituais – completas, genuínas –, mas inferiores! O próprio fato de falarem em melhor e pior já em si configura materialismo espiritual!

E então surge esse montão de gente com complexo de santidade, em que a sanga budista não serve para nada, porque é feita de pessoas imperfeitas. Chuta-se uma moita – principalmente em grupo de internet – e saem milhares.

Bom, esse tipo de jogo niilista com as palavras pode servir a uma comunidade hippie ou a perspectivas new age, mas nenhuma forma de budismo opera sem o reconhecimento do valor dos ensinamentos (e sanga, e prática formal, e coisas como acumulações). É possível que tradições budistas não falem em yanas, mas elas necessariamente descrevem várias formas de pensar não budistas como inferiores. Até umas melhores e umas piores, mas a melhor de todas, sempre a perspectiva do Buda. É simples amor próprio. Não há nenhuma contradição aqui, aliás, haveria contradição se uma pessoa seguindo um método específico achasse que qualquer método serve igualmente. Isso seria o cúmulo da arbitrariedade. Ora, é porque as pessoas veem valor em certas particularidades – e cuidadosamente se asseguraram do valor do que estão examinando – que elas se engajam nessas particularidades. Caso haja uma identificação não saudável à particularidade, aí temos coisas como sectarismo e guerras religiosas, e assim por diante. Mas o mero fato de haver uma particularidade e uma identificação não arbitrária e não solidificada a essa particularidade, não configura nenhum tipo de materialismo espiritual, fracasso ou desrespeito. Ora, respeitar a opinião do outro inclui a respeitar quando, e especialmente quando, ela está justamente errada! (Desde que ela não seja uma visão errônea, é claro, nesse caso a opinião é uma fonte de sofrimento e não deve ser respeitada.)



A união dos três yanas

Sua Santidade o Dalai Lama já afirmou que, embora o diferencial dos ensinamentos vajrayana seja classicamente descrito como o uso das aflições mentais – tais como o desejo ou a raiva – no caminho espiritual, o fato é que mesmo apenas o hinayana já faz esse uso. Afinal de contas, essa mentalidade de pobreza é o que nos leva a reconhecer que está tudo errado com as coisas e assumir renúncia. É justamente o que nos leva a reconhecer o samsara, a experiência cíclica, como insatisfatória – algo essencial para todos os níveis de prática. (Em certo sentido, embora a mentalidade de pobreza por si só produza mais sofrimento e mais pobreza, quando o refúgio no Buda está presente – quando há ao menos um foco de amplidão e riqueza na mente –, a mentalidade de pobreza pode ser efetivamente usada como caminho espiritual: ela redunda no hinayana.)

Assim, são descritos três aflições mentais básicas, e as três correspondem aos yanas: o hinayana corresponde à aflição da aversão ou raiva – porque foca na renúncia e reconhecimento da natureza cheia de sofrimento do samsara; o mahayana corresponde à aflição do desejo ou apego – porque foca na preocupação com os seres, e em seu benefício, e no contínuo revelar de qualidades; e o vajrayana corresponde à aflição da ignorância – uma vez que diretamente usa a própria ilusão do sonho (todas as noções duais) como método espiritual, como por exemplo, a meditação em formas de deidades, nas energias do corpo ou diretamente na natureza da mente, reconhecendo todas suas expressões como sendo de uma mesma natureza. Isto está no cerne do ensinamento vajrayana que explica que o aspecto puro ou a essência de cada emoção aflitiva é de fato uma sabedoria não sendo reconhecida e exercida, e que a aflição pode ser reconhecida em sua natureza verdadeira.

O vajrayana olha para a mentalidade de pobreza do hinayana e diz “ótimo, pelo menos aí a mente se volta para o darma e renuncia ao samsara”. Ele olha para a mentalidade grandiosa do mahayana e diz “fantástico, a pessoa não hesitar perante uma tarefa que vai levar milhões de vidas (levar todos os seres à iluminação) é a própria expressão da mente além do tempo”. Ele olha para a própria mentalidade e diz: “eu lambo o mel da navalha de unir realização e prática como se não houvesse dois momentos”.

A partir dessa perspectiva, o hinayana é focado em comportamento – em ética. Não é que não haja meditação e outras práticas no hinayana, mas quando a ênfase ou prioridade da prática é uma vida ilibada e um aspecto livre de máculas, certa santidade individualista (semelhante mesmo à perspectiva de Thoureau com seu experimento) isso pode implicar limitação. Da mesma forma que com os outros aspectos do caminho, não é o fato de ter uma vida ilibada ou ética que vai ser o problema – aliás, elas são imprescindíveis, e sem a prática do hinayana, o mahayana e o vajrayana não são possíveis: os yanas são cumulativos. É apenas que existe uma tendência para a seriedade, ou despojamento – uma fixação ou seriedade ali –, em alguns casos isso pode impedir a flexibilidade que permite a operação de uma mente mais ampla.

O mahayana, portanto, é quando a ética e a vida ilibada são tidas como importantes, mas secundárias frente às necessidades reais dos seres. O exemplo clássico é que, no hinayana, ao ver um cervo passar e ser perguntado por um caçador para onde o animal foi, é necessário falar a verdade ou ficar em silêncio. Para o mahayana, é perfeitamente lícito assumir a responsabilidade de mentir para proteger uma vida. Isso vem de uma mente que não se prende a prescrições, mas que tem flexibilidade para lidar com as situações, e não se importa tanto com as consequências para si próprio – tanto as cármicas como, muito mais ainda, as em termos de reputação – mas sim se importa com o real benefício dos seres, no caso, o benefício tanto ao caçador, dificultando com que ele cometa a desvirtude de matar, quanto ao animal, ao proteger sua vida.

O vajrayana adiciona um elemento selvagem a essa sabedoria. E, ao ler isso, podemos pensar em alguém agindo de forma tresloucada, mas o fato é que a sabedoria é incorporada a qualquer elemento formal ou informal – não há sobras, não há aspecto que não seja coberto. Assim, além de uma mente ampla, há esse aspecto de riqueza. Na prática o que ocorre é que o vajrayana dispõe de “meios hábeis”, ou miríades de estruturas tradicionais e elaborações bizantinas, que cobrem todos os aspectos da mente, além de uma percepção deles como puros ou impuros.

Hinayana é a direção certa, mahayana é encontrar a espaçosidade nessa direção, e o vajrayana todos os conteúdos desse espaço como um rico ornamento.

Para uma pessoa que tende a conceitualizar muito, por exemplo, em vez de um método que amarre essa mente tagarela, o vajrayana tem métodos para converter essa tendência discursiva e obsessiva na visualização de uma mandala detalhada – uma configuração de deidades (algumas vezes como um exército em batalha), cada uma delas de uma cor, segurando implementos específicos e emanando luzes de um jeito ou de outro. A mente conceitualizadora fica assim totalmente ocupada por elementos, porém o que cada um desses elementos aponta incessantemente é apenas e justamente a natureza do darma. Assim a energia criativa da mente, que para os outros veículos é rejeitada ou perante a qual se aplica antídotos, é diretamente aproveitada, sem nenhuma perspectiva empobrecida que imponha um ditatorial “silencie a mente”, porque isso seria “mais nobre”, ou “mais parecido com o que o Buda fez”. Simplesmente, se a mente se configura assim, isso pode ser aproveitado, sem má vontade alguma.



Espaço pleno de potencial

Sua Santidade o Dalai Lama pode pregar publicamente a necessidade de shamata e outras formas de meditação silenciosa como muito mais importantes do que a ritualística vajrayana, no entanto ele todo ano concede uma iniciação que permite uma prática em que mais de 700 deidades são visualizadas. Embora certa perspectiva historiográfica mundana e especulativa vá dizer que tais práticas advém de fontes não budistas, não é assim que os próprios tibetanos ou Sua Santidade veem. Para eles, e para ocidentais devotos como eu, foi o próprio Buda que transmitiu, de forma mais restrita, esses ensinamentos. Porque esses ensinamentos foram transmitidos de forma mais restrita? Porque, particularmente em tempos mais tranquilos, a mentalidade de pobreza não é capaz de praticá-los, e os entende erroneamente. Sua Santidade, ao frisar publicamente os elementos mais despojados do budismo, mas seguindo sustentando toda a riqueza do detalhismo vajrayana, está apenas sendo cuidadoso, como é efetivamente o recomendado. O vajrayana é o melhor método, mas também o mais perigoso.

Todos nós temos rotinas e entendemos aspectos de trabalho, ou mesmo de tarefas domésticas como cozinhar, como uma sequência de etapas. Em vez de considerar os afazeres “mundanos”, existe então essa noção da “sadhana”, que em um de seus sentidos mais rasos, é um “roteiro de meditação”. As várias etapas da prática purificam toda nossa perspectiva sobre rotina, afazeres e trabalho – tudo que ocorre em etapas. Isto é, aos poucos, com a prática, até mesmo a concatenação de ideias e a interpretação de frases são imbuídas de uma perspectiva de riqueza. Ora, o que a conceitualização ou a leitura (em voz alta) poderiam fazer por nós? São aspectos do samsara – o hinayana claramente irá afirmar isso (a não ser dos textos do próprio Cânone Páli – aí é a palavra do Buda, libertadora). Mas o treinamento ritual do vajrayana revela a sabedoria em todos os aspectos sequenciais, sejam “mundanos” ou “espirituais”, sem de fato um apego direto a causalidade ou a sequência, muito pelo contrário. Quando perguntamos a um lama sobre cada uma das etapas “mas eu faço a meditação exatamente enquanto leio, ou logo antes, ou depois?” ele vai simplesmente nos dizer que fazemos a prática no “espaço que criamos” ou “no espaço da mente”. Esse espaço-tempo não é o espaço físico que contém galáxias, é um espaço muito mais vasto – aplicamos a mente simultaneamente com o que lemos, como der, de uma forma espaçosa. Não é um tempo que se conta em segundos ou bilhões de anos, é atemporal. A prática do mahayana e o vajrayana ampliam o reconhecimento desse espaço de prática de forma inimaginável. Sem nunca abandonar o aspecto relativo, que de fora, se observado por alguém que não entende o que está acontecendo, vê apenas uma pessoa rezando e tocando alguns instrumentos tais como um tambor de mão ou um sino.



Além do materialismo espiritual como desculpa

Assim, sem dúvida que buscar uma ordenação monástica no Theravada, ou acumular mantras, ou sentar por horas numa determinada postura podem configurar materialismo espiritual. Ora, o ego é bastante esperto, ele consegue transformar qualquer coisa em materialismo espiritual.

Isso, nessa altura, já devíamos estar cansados de saber.

O ponto não é usar a ideia de materialismo espiritual como uma crítica a esse ou aquele modo de prática – quem faz isso está apenas agindo de forma sectária. Evidentemente que, se a pessoa acha que acumular mantras é materialismo espiritual, também vai achar que marcar tempo num relógio para fazer prática formal é materialismo espiritual. Ou que estudar o darma, ou tomar refúgio, ou frequentar uma sanga, ou, no extremo, até ver vídeos de ensinamentos no computador. E assim, qualquer coisa que demarque prática formal, ou mesmo prática cotidiana, vai se tornar um obstáculo, e enfim, a prática ela mesma vai ser vista como um obstáculo.

Mas a prática é um obstáculo? Algumas pessoas dirão que, para budas, a prática, particularmente a formal, seria um obstáculo, porque como eles nunca se distanciam da realização, um método para produzir realização nesse caso seria “uma simples perda de tempo”. Mas, por outro lado, nada é um obstáculo para budas, e eles não estão no tempo, então não há “perda de tempo” para um buda. Normalmente, para praticantes como nós, tanto as práticas simples como as mais complexas são bastante úteis, e ambas servem para revelar se somos capazes de manter o ponto crucial em meio a uma diversidade ampla de fenômenos. Em outras palavras, se alguém está praticando mesmo, com base na visão do darma e como uma expressão das próprias qualidades e as da linhagem, qualquer prática é a manifestação das atividades do Buda, e nenhuma prática deve ser evitada – todas devem ser aproveitadas, sem preconceito. Além disso, a própria diversidade de práticas, e a aceitação das minúcias, é o que vence a mentalidade de pobreza.

A tradição nyingma descreve Guru Rinpoche como já tendo surgido na flor de lótus (foi assim que ele nasceu, segundo a tradição) completamente iluminado. Ainda assim, ele praticou formalmente, os textos dizem, para dar exemplo para nós, que precisamos da prática. Assim, pessoas que evitam a prática formal, ou mesmo evitam apenas aspectos aparentemente grosseiros da prática formal, como marcação de tempo ou quantidade, talvez sejam mais iluminadas que Guru Rinpoche, e ainda estejam num lugar com apenas seres completamente iluminados, que não precisam sequer de exemplo de prática espiritual. Por outro lado, existe uma “pequena possibilidade” disso ser apenas desculpa, e um exagero niilista, ou um tanto coisa de hippie new age em torno da concepção profunda de materialismo espiritual. Pode até ser que seja algo assim…



O lugar certo do conceito de materialismo espiritual

Assim, começar pelo conceito de materialismo espiritual não é proveitoso. É preciso praticar e ter alguma espiritualidade para então inevitavelmente distorcer isso, e então aplicar um antídoto. Se a pessoa começa com o antídoto, daí possivelmente ela não gera nem mesmo a prática. Isso acontece frequentemente.

Existe certa mentalidade de riqueza até mesmo em acatar que o materialismo espiritual vai inevitavelmente acontecer. Em certo sentido, a mente que se defende do materialismo espiritual, antes de estabelecer espiritualidade, é mesquinha. É como uma criança que não joga futebol porque pode ralar o joelho. Ora, todo mundo rala o joelho enquanto criança, muitas vezes. Se deixássemos de fazer algo porque poderíamos ter o joelho ralado, o quanto teríamos perdido? Da mesma forma, precisamos entrar em situações que vão revelar nossos obstáculos. Se não deixamos o materialismo espiritual se formar, nós não o enfrentamos – ele segue lá, como um potencial oculto.

Para qualquer praticante, o conceito sublime que Trungpa Rinpoche nos deixou é essencial, é um esforço diário. Já aprendemos pelo menos um pouco a não usá-lo como desculpa, mas a reconhecer que diariamente caímos nessa armadilha – e, como com o ralar de joelhos, levantamos, sacudimos o pó e seguimos o jogo da prática formal e cotidiana.

PS.: Este texto está focado no vajrayana e na tradição tibetana, mas mesmo no Zen ou no Theravada há inúmeras práticas budistas importantes, como recitação de textos e oferendas diárias perante o altar. Os budistas desgarrados – budistas “de internet” – podem se sentir um pouco perdidos com essas ideias, porque esse é exatamente o tipo de coisa que se aprende apenas presencialmente (também a meditação silenciosa, é preciso dizer, só se aprende pessoalmente). Da mesma forma, acumulações e as práticas vajrayana começam no relacionamento com o professor, e não existem fora desse relacionamento. Assim, para quem é curioso com o budismo e deseja tomar refúgio, aqui pode nascer uma vontade forte de efetivamente conhecer pessoalmente a tradição, nem que isso implique gastos e viagens (dentro e fora do Brasil). Que assim seja!

Que todos abandonem a mentalidade derrotista do despojamento espiritual. Que possamos nos engajar nos métodos do Buda com toda sofreguidão e paixão que temos pelo vasto fast food do samsara, e que enfim essas próprias aflições de ânsia pelo darma, em choque com o darma, se revelem qualidades intrínsecas da mente, incapazes de causar dano a nós mesmos e aos outros. Que os aspectos de simplicidade e complexidade, facilidade e dificuldade, sejam totalmente transcendidos. Que não julguemos a prática de nosso professor, e sim a acatemos como nossa, até revelar para benefício de todos os seres, e como expressão da realização inata, toda a multiplicidade infinita de meios que levam ao reconhecimento final.

Padma Dorje é praticante budista e autor de Filosofia: forma de vida & passarela de egos. Saiba mais sobre seu trabalho no site tzal.org.

Generosidade: como o ato de doar nos deixa melhor


Dana paramita, ou generosidade: como o ato de doar nos deixa melhor

A fala importantíssima da professora Jetsunma Tenzin Palmo em seu livro "No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano"


O Buda colocou dana, que significa “doar” ou “generosidade” em sânscrito, bem no início do caminho do bodisatva porque é algo que todos podemos fazer. Por mais deludidos que possamos estar, por mais raiva que tenhamos, por mais ciumentos ou gananciosos que possamos ser, ainda assim podemos doar. É uma qualidade muito básica. Não precisamos atingir nenhuma elevação espiritual para aprender a doar. Doar significa abrir as mãos e o coração. É uma maneira muito bonita de responder aos outros.

Na Ásia, as pessoas entendem com clareza toda esta qualidade de praticar a doação e a generosidade de forma sincera. Baseia-se no entendimento de que, se quisermos prosperar e ser bem-sucedidos, não só agora, mas em nossas vidas futuras, temos que plantar as sementes. Não poderemos colher se não plantarmos sementes. As sementes da prosperidade são a generosidade e a doação. Portanto, se quisermos ter sucesso, temos que criar as causas para isso. Se temos dificuldade em obter dinheiro, se acabamos ficando sempre muito pobres, é porque não criamos as causas suficientes por meio da sinceridade e da generosidade no passado. O Buda disse que, se as pessoas entendessem o verdadeiro benefício futuro da doação, não guardariam uma única refeição apenas para si mesmos. Tentariam compartilhar todas as refeições. Mas, por não enxergarmos os resultados futuros, pensamos: “Se eu der isto aqui, vou ficar com o quê? O que sobrará para mim?”. Esse tipo de mentalidade não apenas suprime os nossos impulsos generosos, como também cria as causas para não sermos prósperos futuramente.


Doar é uma alegria! É a mente fechada do “Este sou eu, isto é meu, e eu não vou dar para ninguém” que nos causa tanta dor e nos impede de realmente apreciarmos o que temos. Veja, não é as coisas que possuímos que são o problema; o problema é nos agarrarmos a elas, é o nosso apego. São as coisas que nos possuem ou nós que possuímos as coisas? Somos capazes de segurar as coisas de leve, de tal forma que, ao vermos alguém em necessidade ou apenas por sentirmos apreço, sejamos capazes de doar?

Na Índia, eu tinha um amigo que era um swami hindu e morava em um ashram bastante simples, não muito longe do nosso mosteiro. Na verdade, era um discípulo direto do grande sábio indiano Ramana Maharshi, do sul da Índia. Nosso amigo swami tinha diversos discípulos em toda a Índia e no exterior. Mas vivia de maneira simples. As pessoas sempre levavam-lhe coisas difíceis de se encontrar na Índia — e por isso muito apreciadas. Todavia, quando alguém lhe dava qualquer coisa, não importava o que fosse, seu primeiro pensamento era: “Quem seria uma boa pessoa para eu dar isto?”.

Nada ficava preso entre seus dedos. Tudo o que chegava às suas mãos escorregava para as de outra pessoa. E ele era feliz porque a sua vida era um contínuo receber e passar adiante. Não havia acumulação. Não havia a necessidade de carregar suas posses com o medo de perdê-las, como um pesado fardo em suas costas. Mas isso não quer dizer que você deva ir para casa e se desfazer de todas as suas coisas. Na verdade a questão é abrir o coração, realmente ser capaz de ter satisfação em doar aos outros, e não apenas coisas materiais. As coisas materiais são um bom começo, mas também podemos doar nosso tempo e nossa solidariedade. Podemos estar ao lado das pessoas quando precisarem de nós. Podemos oferecer nosso destemor.


Na linguagem budista, existem três tipos de doação. Em primeiro lugar, a doação de presentes materiais. Em segundo lugar, a doação do Darma. Isso significa estar ao lado das pessoas ouvindo-as, tentando ajudá-las de alguma maneira, até mesmo clareando um pouco suas mentes, oferecendo conselhos. E depois há também a doação do destemor, de ser um meio de proteção e ajudar os outros a descobrirem a sua própria coragem — esse é um presente que não tem preço.

Podemos começar a doar de forma simples, desenvolvendo a qualidade de estarmos consciente dos outros e de suas necessidades. Podemos doar alegria e prazer por meio da intenção de ajudar os outros. Não dar presentes apenas no Natal, em aniversários ou ao fazer uma visita, mas espontaneamente — vemos algo de que gostamos e damos de presente a alguém, talvez até mesmo para alguém de quem não gostamos. Dar algo para pessoas de quem não gostamos é uma bela maneira de nos relacionarmos com os outros. O Buda enfatizou a importância da generosidade — essa qualidade de alegria em dar aos outros, sem sustentar sempre o senso de “o que eu posso pegar para mim”.

Tradicionalmente, existem três tipos diferentes de receptores de doações que nos são recomendados. Primeiro, pode-se doar para aqueles que de alguma maneira consideramos merecedores. Isso significa, na linguagem budista, os budas e bodisatvas. Significa a sangha monástica, seu professor espiritual ou qualquer professor considerado inspirador e superior em termos espirituais. Ofertamos em sinal de honra e respeito. O segundo grupo de receptores pode incluir aqueles a quem doamos por gratidão, particularmente nossos pais. Também podem ser nossos professores e qualquer um que tenha nos ajudado de alguma forma.

Somos gratos. As qualidades de homenagem, gratidão e respeito tornaram-se muito denegridas no mundo de hoje, essa é uma das razões pelas quais nossa sociedade está se desintegrando. Não incutimos mais essas qualidades do coração em nossos filhos. Alguns filhos abusam e falam mal dos pais. Mas sem nossos pais não estaríamos aqui. O nascimento humano depende dos pais. Quando nascemos, eles nos olharam e não nos jogaram fora dizendo: “Eca, que verme cor-de-rosa horrível!”. Nossos pais nos limparam, trocaram nossas fraldas, nos alimentaram e nos acalmaram quando choramos. Sem eles não estaríamos vivos hoje. Não importa quanto os achemos incorrigíveis. Eles são seres humanos e têm pontos positivos e falhas como todo mundo. Nossos pais sempre estiveram por perto e nos amaram quando éramos pequenos. Portanto, temos com eles uma imensa dívida de gratidão.

E então tivemos os nossos professores — não seríamos capazes de ler, de escrever ou de saber qualquer coisa se não fosse por essas pessoas que nos ensinaram, que nos mostraram como pensar, como aprender. Devemos ser muito gratos. Devemos ser sinceramente gratos por tudo que nos deram. Por que somos críticos? A sociedade é muito difícil, especialmente os jovens de hoje em dia. Tornamo-nos exigentes, críticos e egoístas.

Há pouca gratidão. Em terceiro lugar, podemos doar àqueles que estão em necessidade — os pobres e os doentes, ou qualquer um que tenha uma necessidade especial. É bacana oferecer o seu casaco para o seu melhor amigo, mas é mais significativo dá-lo a alguém que não tem um casaco e que está sentindo frio. Doar de forma apropriada para aqueles que realmente necessitam é fundamental. Às vezes as pessoas precisam apenas de atenção. Precisam de alguém que não as desconsidere e ouça a sua dor.

A qualidade de nossa vida, e a decisão de manter nosso coração fechado ou aberto, depende de nós. Portanto, o primeiro gesto de um coração aberto é a generosidade.

* * *

Nota do editor: este texto é um trecho do livro No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano, de Jetsunma Tenzin Palmo, professora da linhagem Drukpa, recomendada por outros grande nomes como S.S. Dalai Lama, Alan Wallace entre outros. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor no PapodeHomem.

É parte de uma parceria nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano apoiado por nós. 

Você pode também comprar o livro No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano, de Jetsunma Tenzin Palmo, clicando na imagem abaixo ou nos links da nota, que te leva direto pro carrinho com frete grátis.

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Para ler mais


Praticar um olhar generoso | Exercícios de Atenção, 1.publicado em 06 de Fevereiro de 2018, 00:00




Autora de No Coração da Vida e uma das maiores professoras de budismo no mundo, oferecendo palestras e retiros por todo o mundo mundo. Também é fundadora de um monastério de monjas.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

“Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”



https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual”



Byung-Chul Han
O filósofo Byung-Chul Han em Barcelona  EL PAÍS



“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.
Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.
Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.
‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.
Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.
Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.
Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.
Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.
Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.
Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.


O “MONSTRO” DA UNIÃO EUROPEIA


“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:
“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.
Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos...; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil...”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.