domingo, 26 de julho de 2009

O Desapego

Certa ocasião, um monge entrou na sala do mestre, ofereceu incenso, fez as devidas reverências e disse: "Mestre, abandonei todas as coisas, estou livre de quaisquer apegos, o que faço agora?".

O mestre respondeu: "Desapegue-se, livre-se disso".

Confuso, o monge perguntou novamente: "O senhor não compreende, mestre. Eu disse que estou completamente desapegado de tudo. O que faço?".

E o mestre respondeu: "Então, carregue isso com você".


Há uma expressão antiga que diz o seguinte: "No começo a montanha era montanha. Depois, a montanha não era mais montanha. No final, a montanha é só uma montanha".


Os vários estágios de nossa vida. Nossos apegos e desapegos. Vista de longe, a montanha é apenas uma montanha. Se a adentramos veremos folhas secas, os galhos, as teias de aranha, as árvores e os arbustos, os animais, os insetos, os buracos, as cavernas, os cadáveres e os nascimentos. Tudo estará fragmentado e, aos olhos inexperientes, assustador. A montanha já não é uma montanha, mas as partes que ela contém.

A montanha é apenas uma montanha, mas foi conhecida internamente, intimamente. A vida é apenas a vida, mas sem vivê-la, como sabê-la? Dentro da própria vida, vivemos e compreendemos a vida. Desapego. Desapego é liberdade. É amar sem se grudar. É permitir ao Ser que se manifeste, sem o ente atrapalhar.

Sem apegos e sem aversões a vida é uma beleza. Percebemos a cada instante da flor sua pureza.

Sem apegos e sem aversões as pessoas são como são. Não julgamos, condenamos, vaiamos ou detestamos.

Sem apegos e sem aversões não há crimes nem ladrões, não há mortes, assassinatos, suicídios nem outros lapsos.

Sem apegos e sem aversões somos todos responsáveis pelo amanhecer dourado e pelo anoitecer de prata.

Sem apegos e sem aversões encontramos você na estrada. Reconheço seu perfume, seu sorriso, sua fala.

A terra girando nos leva, qual nave bem governada, para um destino que fazemos juntos a cada rotação. Escolhida está a rota, mas como chegamos lá? Depende sempre da gente a cantar ou a lastimar.

Vejo naquele canto uma sombra peculiar. Poderia ser de anjo, poderia ser de um altar. A sombra está se movendo.

Não sei o que esperar. Fico olhando terrificada, mãos molhadas, frio no dia quente. E então, mais que de repente, surpreendida percebo que sou eu a sombra assombrada.

Sem apegos somos livres, não grudamos feito cola. Não nos viciamos em nada.

Sem apegos somos ar, somos vento, somos nuvem.

Somos sombra passageira de uma luz que é em nós.

Sem apegos abrimos os braços, abrimos todos os dedos, abrimos todos os nós e nos soltamos ao luar.

Na praia somos a areia, na água somos o mar. No céu voamos ligeiro, nas terras vamos devagar.

Sem apegos caminhamos, livres, mãos a abanar, prontas a pegar o fruto, a plantar, a semear.

Sem apegos acariciamos a doçura de um olhar e depois nos distanciamos com a lágrima a rolar.

No momento imediato nosso ser já se refez. Sem apego, sem aversão, somos livres como toda a imensidão.

Nada pertence ao ser, pois o ser é tudo. Não há nada a perder, nem ganhar. Quando a gente compreender o desapego real, seremos capazes de cuidar de quem chegar e de quem vai.

Sem apego, sem aversão, se aproxime e me dê a sua mão.



Monja Coen Sensei - Sempre Zen - PubliFolha

O espírito da velha dama

Tetsu recebera a educação de mestre Dogen; jovem, inteligente, bom zazen, bom samu, era o terceiro de Eihei-ji. Ejo, mais velho que Dogen, tornara-se, apesar disso, seu discípulo e criado.

Respeitava Dogen, que o tratava igualmente com respeito.

Ejo possuía um espírito profundo, repleto de compaixão.

Tetsu era "perfeito" e muito hábil: sutra, postura, zazen, comportamento, em tudo ia muito bem.

Mas tinha um ponto fraco: não possuía "o espírito de compaixão da velha dama" e não podia seguir a ordem cósmica.

Por isso mesmo, pouco tempo antes de sua morte, Dogen mandou chamá-lo e disse-lhe:_ Sabes tudo acerca do budismo, mas não podes abandonar tua habilidade e tua inteligência. Hás de ter " o espírito da velha dama, o espírito da grande compaixão". Essa compaixão deve ajudar a humanidade inteira. Não penses apenas em ti mesmo.Temos em nós o espírito, nem raro nem especial, do Buda. Devemos acreditá-lo inconsciente, natural, automaticamente. É a verdadeira fé. Nós e Buda não estamos separados. É preciso ir além do poder do Buda ou de Deus. Perder o próprio ego e ter o espírito de compaixão.Mas isso não depende nem da inteligência, nem da técnica, nem do saber.


Taisen Deshimaru-A tigela e o Bastão - Postado por Shumaia Sodô: http://silenciozen.blogspot.com/