terça-feira, 30 de maio de 2017

O budismo crê em reencarnação?



"A reencarnação no Buddhismo, quando é mencionada por alguns, é apenas uma crença popular e exterior, apropriada para aqueles que só conseguem fazer o bem se acreditando em um proveito próprio. "Eu faço isto para receber os frutos amanhã ou em outra vida". É uma crença popular, sustentada seja por orientais que desconhecem qualquer coisa mais profunda de sua tradição, seja por ocidentais iniciantes. É semelhante àqueles cristãos que acreditam que Deus é, realmente, um homem velho e barbudo sentado em um trono de madeira pousado nas nuvens. A idéia ocidental da reencarnação, ou seja, a de que uma alma ou "espírito" imutável ocupa diferentes corpos humanos indefinidamente, nem mesmo existe no Buddhismo (lembremos seu ensinamento fundamental sobre o não-eu), sendo fruto das concepções espíritas surgidas no fim do século XIX.

O que o Buddhismo de fato ensina é o renascimento, algo por completo diferente da reencarnação tal como é concebida no Ocidente. No processo de passagem do Buddhismo para o Ocidente entretanto os tradutores e intérpretes ocidentais começaram a fazer uso de suas próprias concepções influenciadas pelo espiritismo para interpretar doutrinas buddhistas, o que teve como resultado um engano que permanece até hoje na mente de alguns que estudam o Buddhismo superficialmente e isto principalmente no Brasil. Como diz o monge Khantipâlo: "Uma sucessão de vidas com uma alma encarnando em uma série de corpos é freqüentemente chamada de reencarnação. No Buddhismo, o ensinamento referente a este tema é fundamentalmente diferente... Não há re-encarnação no Buddhismo pois não há entidade espiritual imutável; em termos últimos, nenhuma alma pode ser encontrada que possa se re-encarnar. O Buddhismo não constrói a dicotomia entre um corpo perecível de um lado e uma alma eterna de outro".

Renascimento significa no contexto buddhista a transmissão ou influência das ações intencionais nos seus frutos. Toda ação intencional, para o bem ou para o mal, gera conseqüências. Diz-se, assim, que a ação "renasce" nos seus frutos, ou seja, há uma interdependência entre ações e reações.

O que o Buddhismo ensina é que a vida é una e uma só, tomando formas diferentes, mas estreitamente dependentes e ligadas entre si. É uma só vida que anima tudo. Daí "vida" ser na Bíblia traduzida muitas vezes do latim anima que significa "alma". Esta única vida ou "alma" assume várias formas, todas elas impermanentes e transitórias, como tudo o que é criado. 

Estas formas nascem, morrem, renascem, tornam a nascer e assim por diante. Uma semente também nasce, se desenvolve, se transforma em árvore, que por sua vez morre, mas gera muitas sementes. De certa forma, podemos falar que aquela árvore "renasce" na semente. 

Entretanto, nem a árvore e sua semente são a mesma, nem são radicalmente diferentes. Se falamos que são iguais, então, caímos no reencarnacionismo. É o mesmo que dizer que a árvore se "reencarnou" na semente! Que ela é o mesmo "ser" em um outro "corpo". Um completo absurdo. Mas falar que são completamente diferentes entre si é cair no que podemos chamar de ceticismo, agnosticismo ou casuísmo:a concepção que vê tudo como isolado e independente. É a concepção de que uma vez que se morre é o fim e pronto! Ou ainda significa falar que tudo acontece por acaso sem nenhuma ligação anterior.

O Buddhismo poderia falar, pelo contrário, que a "ressurreição" ocorre quando estas "porções de vida" compreendem que não são isoladas do todo, mas são expressões de uma única vida. É a Libertação da Ilusão, a Iluminação, o encontro com o Absoluto.

Isto tem a ver com responsabilidade universal por todas as coisas. O que fazemos aqui se reflete pelos dez cantos do universo. O pecado (ignorância) de um, mancha todo o resto, como uma gota de tinta jogada em uma bacia de água. Mas também a Iluminação de um salva todo o universo, como uma lâmpada que, quando acesa, ilumina todo o quarto escuro."
(continua)

Ricardo Sasaki, "O Caminho Contemplativo"

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Pontos a observar no Estudo do Caminho




1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi

A Mente-Bodhi é conhecida por muitos nomes, porém todos se referem à mesma Mente Una. O Venerável Nagarjuna[1] disse, “A mente que vê através do fluxo do aparecer e desaparecer e reconhece a natureza transitória do mundo é também conhecida como Mente-Bodhi.” Por que então, a dependência temporária nesta mente é chamada de Mente-Bodhi? Quando a natureza transitória do mundo é reconhecida, não aparece nem a mente egoísta comum nem a mente que busca fama e proveito.

Ciente de que o tempo não espera por ninguém, pratique como se estivesse tentando apagar o fogo em seus cabelos. Reflita sobre a natureza transitória do corpo e da vida, se esforce exatamente como o Buda Xaquiamuni fez quando levantou seu pé[2].

Mesmo que ouça o chamado bajulador do deus Kimnara e do pássaro Kalavinka[3], não preste atenção, considere-os apenas como a brisa do anoitecer soprando em seus ouvidos. Mesmo que veja uma face tão bela como a de Mão-cha’ng ou Hsi-shih[4], pense nela apenas como o orvalho da manhã bloqueando sua visão.

Quando livre do apego ao som, cor e forma, naturalmente se tornará um com a verdadeira Mente-Bodhi. Desde os tempos antigos existiram aqueles que ouviram pouco sobre o verdadeiro budismo e outros tiveram pouca oportunidade de ouvir, ler e estudar os sutras. A maioria deles caiu na armadilha da fama e lucro, perdendo a essência do Caminho para sempre. Que pena! Que lamentável! Não ignorem isto.

Mesmo que você tenha lido os meios expedientes ou verdadeiros ensinamentos de grandes sutras[5] ou transmitido os ensinamentos esotéricos[6] e exotéricos, a menos que abandone fama e lucro, não se poderá dizer que tenha despertado a Mente-Bodhi.

Alguns dizem que a Mente-Bodhi é o mais alto e supremo estado de iluminação de Buda, livre da fama e do lucro. Outros dizem que é aquilo que abrange um bilhão de mundos[7] em um único momento de pensamento, ou que é o ensinamento no qual nenhuma delusão surge. Outros ainda, dizem que é a mente que entra diretamente no plano de Buda. Estas pessoas, ainda sem entender o que é a Mente-Bodhi, de maneira devassa a caluniam. Elas estão, na verdade, muito longe do Caminho.

Reflita sobre sua mente comum, como está egoisticamente apegada, à fama e ao lucro. Está possuída pela essência e aparência dos três mil mundos, em um único momento de pensamento? Este pensamento único experimenta o portal do dharma do não nascido? Terá ela experimentado o ensinamento que não desperta uma única delusão? Não! Nessa mente apegada não há nada a não ser delusão de fama e de lucro, nada digno de ser chamado de Mente-Bodhi.

Muito embora desde os tempos antigos tenham existido Budas Ancestrais que usaram métodos seculares para realizar a iluminação, nenhum deles esteve apegado à fama e ao lucro, nem mesmo ao Dharma, quanto menos ao mundo comum.

A Mente-Bodhi é, como foi mencionado anteriormente, aquela que reconhece a natureza transitória do mundo – uma dos quatro percepções[8]. É completamente diferente daquela apontada pelas pessoas confusas.

A mente do não surgimento e a mente do aparecimento de um bilhão de mundos são práticas muito boas após se ter despertado a Mente-Bodhi. “Antes” e “após”, no entanto, não devem ser confundidos. Apenas esqueça de si e tranqüilamente pratique o Caminho. Esta é verdadeiramente a Mente-Bodhi.

Os sessenta e dois pontos de vista estão baseados no eu[9], portanto, quando visões egoístas aparecem, apenas faça zazen tranqüilamente, observando. Qual é a base de nosso corpo, suas posses internas e externas? Você recebeu seu corpo, cabelo e pele de seu pai e de sua mãe. Entretanto, as duas gotas de seus pais, vermelha e branca[10], são vazias do início ao fim, portanto, não há nenhum eu aqui. Mente, consciência discriminativa, conhecimento e pensamento dualístico amarram a vida. O que, em última instância, são inalar e exalar? Não são o eu. Não existe nenhum eu para se apegar. A pessoa deludida, entretanto, está apegada a si mesma e a iluminada está desapegada. Ainda assim vocês procuram medir o eu que é não eu e se apegam ao surgir que é não surgir negligenciando a prática do Caminho. Por falhar em cortar suas amarras com o mundo fogem do verdadeiro ensinamento e correm atrás do falso. Vocês se atreve a dizer que não estão agindo erroneamente?

[1] Nascido em uma família de Brahman (ver “O Mérito de Se Torna Monge” ) nota 9: no sul da Índia no segundo ou terceiro século AD, tornou-se um dos principais filósofos do Budismo Mahayana, sendo considerado como o Décimo Quarto Ancestral na linhagem da transmissão do Darma. Ele defendia a teoria de que todos os fenômenos são relativos, não tendo uma existência independente.


[2] No Budismo Mahayana se acredita que o fundador histórico do Budismo, Buda Xaquiamuni, atravessou inúmeras transmigrações antes de finalmente realizar a iluminação. Também se acredita que antes do Buda histórico tiveram milhares de pessoas que já tinham atingido o “Estado de Buda”, sendo um deles o Buda Pusya. Quando o Buda Xaquiamuni em uma de suas vidas anteriores encontrou este Buda, é dito que para mostrar seu respeito para Pusya, Xaquiamuni permaneceu com um pé levantado por sete dias e noites cantando um sutra.

[3] Kimnara é um deus indiano da música. O kalavinka é um pássaro mítico indiano com uma bela voz.

[4] Estas duas mulheres são consideradas entre as mais belas cortesãs da antiga China.

[5] “Ensinamentos verdadeiros” refere-se propriamente aqueles do Saddarma-pundarika. Avatamsaka, e do Mahaparanirvana Sutra e “livros” incluem todos os outros ensinamentos.

[6] Os ensinamentos esotéricos são encontrados nas escolas Shingon japonesa e Tendai, e refere-se a doutrinas e rituais com grande influências do hinduísmo, que se desenvolveram na Índia durante os séculos sete e oito. Estes ensinamentos, tendo propriedades mágicas, apenas podem ser revelados àqueles que foram devidamente iniciados. Os ensinamentos exotéricos se referem a todos os outros ensinamentos.

[7] Pensava-se que todo o universo, em sua integridade, fosse constituído de um bilhão de mundos.

[8] Em inglês insights. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio: Compreensão repentina, em geral intuitiva, de suas próprias atitudes e comportamentos, de um problema, de uma situação.

Os outros três insights são: (1) que o corpo é impuro; (2) que a percepção conduz ao sofrimento; e (3) que a mente é impermanente.

[9] Em inglês: “self”.

[10] A gota vermelha representa o óvulo da mãe e a branca o esperma do pai.



(*) Pontos a Observar no Estudo do Caminho, Gakudo Yojin-shu, é um dos textos usados para aprofundar a compreensão dos iniciantes no Zen Budismo e para aqueles que se engajam no Curso de Preceitos. A tradução atual é uma revisão modificada e melhorada daquele texto original e se baseou em várias versões em Inglês organizadas por diferentes mestres:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

AS 4 NOBRES VERDADES DO SOFRIMENTO EMOCIONAL


com tradução: Alexandre Y. Okamoto



O Buda estabeleceu um caminho de quatro passos para a liberdade frente a emoções difíceis. O segredo, diz Anyen Rinpoche, é entender por que nossas emoções nos causam tanto sofrimento. Uma vez tendo sabido isso, o caminho para liberdade torna-se claro.

A maioria de nós começa a praticar o Budismo porque nos sentimos insatisfeitos e desiludidos com a vida, de uma forma geral ou por alguma razão específica. De fato, é raro encontrar alguém que se voltou para o Darma por pura curiosidade e não por uma real necessidade de aliviar algum desconforto ou situação dolorosa.

O que mais os praticantes do Darma têm em comum? O fato de que a maior parte de nós fez tudo o que podia para aliviar a infelicidade, mas não tivemos sucesso em encontrar a felicidade que pensávamos ser possível. Uma razão para isso é que nós nos enganamos frequentemente quanto às verdadeiras causas da infelicidade.

Por exemplo, nós podemos pensar que nossa infelicidade resulta de nos depararmos com uma barragem de situações indesejadas, ainda que estejamos fazendo todo o esforço para termos o tipo de vida que desejamos. A maior parte de nós sabe, em algum nível, que não podemos controlar as pessoas ao nosso redor ou os acontecimentos de nossas vidas. Mas, mesmo munidos dessa sabedoria, nós continuamos experienciando muita dor e infelicidade.



As Quatro Nobres Verdades Sobre As Emoções

No Budismo nós temos a primeira nobre verdade: a verdade do sofrimento. Eu conheci alguns budistas que querem evitar falar sobre a verdade do sofrimento. Eles dizem que isso irá desencorajar as pessoas a praticar o Darma porque soa deprimente. Eles querem encontrar um modo mais inspirador para descrever a experiência humana.

Mas vamos dar nomes aos bois. Todos nós sofremos diariamente de formas variadas — fisicamente, mentalmente e emocionalmente. E por mais que nos sintamos felizes por um momento, nós nunca sabemos quanto isso vai durar. Daqui um ano, um mês, uma semana, amanhã, ou até mesmo daqui cinco minutos, a mesma situação pode nos causar tristeza, raiva, inveja ou ressentimento. Nossas emoções mudam de momento a momento e trazem uma cascata de humores, sentimentos e padrões de pensamento — muitos dos quais aumentam nossa infelicidade e alguns dos quais são autodestrutivos.

Nossas emoções podem ser muito difíceis de lidar. Muitos de nós reconhecemos que nossas emoções estão fora de controle — ou nos controlando. Nós ansiamos por relações próximas e íntimas com os outros, mas nossos sentimentos são tão avassaladores que nós não conseguimos achar um modo de nos abrirmos para os outros e nos relacionarmos com suas experiências.

Por nos focarmos tanto em como nos sentimos, podemos nos tornar autoprotetivos e defensivos, constantemente preocupados se os outros vão nos machucar ou tirar vantagem de nós. Esses sentimentos de autoproteção podem ser parte de um ciclo emocional contínuo, alimentando até mesmo reações emocionais mais fortes que causam um caos em nossas mentes e em nossas relações interpessoais.

Nos ensinamentos budistas, nós chamamos essas emoções — como a raiva, o apego, a inveja e a arrogância — de “venenos”. Elas envenenam não apenas nossa própria felicidade, mas também nossas conexões com entes queridos, amigos, colegas de trabalho e a comunidade local. Soa familiar? É porque somos seres humanos e a verdade do sofrimento não pode ser evitada.

Quando nós realmente olhamos para todos os problemas que nossas emoções nos causam, podemos ficar surpresos. Nós usualmente colocamos a culpa por nossa infelicidade em coisas externas, tal como quando somos tratados ou se dirigem a nós de uma forma que não gostamos. Nessa situação, nossa reação comum é nos ressentirmos com a pessoa que sentimos que nos ofendeu.

Mas nós deveríamos tomar certo tempo para examinarmos a verdade sobre a questão. Não importa como outra pessoa nos trate, quão difícil uma situação seja, ou qual das nossas necessidades pessoais nós sentimos que não foram supridas, nós temos de fato o poder de transformar nosso próprio estado mental de ressentimento para um de paz e contentamento.

Quando nós refletimos dessa forma, nós vemos que na verdade o problema são nossas próprias emoções. Elas que estão infligindo tanta dor. Esta é a segunda nobre verdade: a origem do sofrimento. Nós sofremos porque nós não sabemos como lidar com nossas emoções e reações emocionais. Nós não percebemos que culpar os outros por nossa infelicidade nunca nos trará felicidade, então nós continuamos a lidar com nossos problemas da mesma forma de sempre, o que só nos traz mais sofrimento.

Nós sofremos porque continuamente escolhemos nos identificar com e focarmos em como nos sentimos. Mas nos identificarmos com nossas emoções é como jogar lenha na fogueira. Se nós escolhemos nos identificarmos com a raiva, ela queimará ainda mais quente e demorará mais para apagar. O mesmo é verdadeiro para os outros venenos como o apego, a inveja e a arrogância. Nos identificarmos com nossas emoções é uma receita infalível para mais infelicidade.

A verdade sobre a origem do sofrimento pode ser libertadora. Nós entendemos que a cada momento a felicidade está disponível para nós se escolhermos liberar nossas fortes emoções e relaxar. Essa é a terceira nobre verdade: a verdade da cessação. Se nós aceitarmos que nossas emoções são a causa do sofrimento, nós podemos erradicar o apego e a identificação a elas que causam tanto sofrimento.

Então, nós nos sentiremos motivados a praticar o Darma autenticamente e entusiasticamente. Essa é a quarta nobre verdade: a verdade do caminho. Todos os antigos mestres domaram suas emoções usando as ferramentas e técnicas apresentadas pelo caminho do Darma. Se nós praticarmos o caminho da mesma maneira que fizeram, nós podemos ter certeza de que mudanças positivas surgirão. E nós poderemos compartilhar essas mudanças positivas com as pessoas nas nossas vidas.



Você É O Que Você Sente: Uma Fórmula Para A Infelicidade

Nosso sofrimento pode parecer diferente dos sofrimentos dos outros, mas todos seres humanos experienciam emoções dolorosas e situações indesejáveis. Todos nós enfrentamos a separação de entes queridos, brigas com amigos e mortes de membros da família.

Isso pode trazer uma questão: “Todos no mundo todo estão cheios de perturbações emocionais?” Na verdade, baseado apenas na educação que recebi no Tibete, eu responderia que não. Claro, nós tibetanos temos emoções como qualquer ser humano, mas há aspectos da cultura tibetana que ajudam o povo a lidar com suas emoções de um modo que os fazem menos dominadores e exigentes.

Quando era garoto, ao interagir com minha família, minha vila e minha sangha, nós sempre focávamos nos outros. A coisa mais importante não era como cada pessoa se sentia individualmente, mas como o grupo todo se sentia. No Tibete, assim como em outras culturas budistas asiáticas, há muita valorização em colocar a felicidade e bem-estar do grupo acima de nossos sentimentos pessoais. Nesse tipo de ambiente cultural, o humor e a energia do grupo é deteriorada sempre que alguém foca demais em si mesmo.

Muitos norte-americanos comentam sobre o caráter alegre do povo tibetano, especialmente quando eles viajam para minha terra natal. Eu acredito que essa disposição feliz vem de como os tibetanos apreciam as conexões familiares e com a comunidade e como não gastam muito tempo focando em suas próprias emoções pessoais.

Eu não havia me dado conta de que esse era um aspecto peculiar da cultura tibetana até que deixei o Tibete. Quando eu vim para a América há mais de dez anos, eu percebi o forte relacionamento que os norte-americanos têm com suas emoções. As pessoas aqui estão focadas em suas emoções muito mais que os tibetanos, e elas são encorajadas a fazê-lo. Como resultado, eu percebi que a forma como as pessoas fazem as coisas aqui é bem o oposto de como nós fazemos no Tibete. Essa cultura valoriza o foco nos próprios sentimentos mais do que no humor e energia das pessoas e situações ao redor.

Qual é a consequência desse modo de se relacionar com as emoções? Primeiramente, isso pode nos tornar extremamente sensíveis. Nós reagimos emocionalmente a praticamente tudo e todos ao nosso redor. As emoções se tornaram o âmago da identidade norte-americana — você é o que você sente, quase literalmente. Até mesmo a língua inglesa expressa essa ideia. Nós nos identificamos diretamente com as nossas emoções dizendo, “I am angry” [“Eu estou com raiva”; porém “I am” pode ser lido também como “eu sou”] ao invés de “I have anger” [“Eu tenho raiva”], como em outras línguas como o espanhol. Na língua tibetana nós dizemos “a raiva está presente” e não conectamos a emoção com um “eu” de forma alguma.

Qual é o problema em conectarmos nossa identidade ou ego — nossa própria noção de um eu — com nosso estado emocional? Além de toda a dor e sofrimento que nossas emoções nos causam quando focamos nelas, as repetimos e nos obcecamos com elas, nós também perdemos nossa capacidade de nos conectarmos com os outros. Nós podemos expressar coisas que machucam as pessoas que amamos, sem percebermos que nossas palavras são nocivas.

Nossa identidade pessoal toma muito espaço. Nós podemos ter problemas ao nos relacionarmos com comunidades por causa da exigência de comprometermos nossas necessidades com as necessidades dos outros. Ou então nós nos retiramos porque precisamos sentir que temos espaço suficiente para respirar e por não querermos ser influenciados por ideias, palavras, ações e energias alheias. Como resultado, muitas pessoas se sentem isoladas, incompreendidas e solitárias.

No final, nós fizemos exatamente o oposto do que propusemos fazer. Nós pensávamos que nos protegermos e prestarmos atenção em nossos sentimentos nos faria mais felizes, mas, na verdade, nossa infelicidade que aumentou. No Darma nós temos um ditado: “Todas as pessoas desejam a felicidade, mas, ao invés disso, correm atrás do sofrimento.” Quando nós refletimos sobre nossos relacionamentos com nossas emoções. nós podemos ver o quanto isso é verdadeiro.

O caminho budista tem ferramentas que nos ajudam a treinar nossa mente para que não coloquemos tanta energia nas nossas reações emocionais. Ao reduzirmos gradualmente o foco que nós comumente colocamos em nossas emoções, nós começamos a nos identificar menos com elas. Ao nos identificarmos menos com nossas emoções, nós nos tornamos mais propensos a liberar pequenas situações e começamos a nos sentir mais relaxados. Isso inicia um diferente tipo de ciclo emocional. Ao começarmos a ver que liberar pequenas situações nos traz paz e felicidade, nós nos tornamos mais propensos a liberar outras situações. Quando nós relaxamos e deixamos ir, nós nos identificamos cada vez menos com nossas emoções. Quando nós nos identificamos menos com nossas emoções, nós ficamos menos autoprotetivos, menos emocionalmente reativos e nos sentimos mais felizes.



A Prática da Meditação: Mudando Seu Relacionamento Com Emoções Difíceis

Como transformamos os relacionamentos que temos com as emoções? Eu sugiro algumas técnicas diferentes, todas as quais se encontram na categoria de lojong ou treinamento da mente. Primeiramente, eu sugiro trabalharmos diligentemente para desenvolvermos a atenção plena [mindfulness] em relação às nossas reações emocionais. Eu não estou sugerindo que você se identifique com suas reações emocionais, mas simplesmente tente perceber o quão mutáveis seus humores e sentimentos são.

Uma maneira de fazer isso é contemplando a natureza impermanente da vida. Ao cultivar a atenção plena você se dá conta de que a energia de sua mente muda de momento a momento. Em um momento você se sente calmo e relaxado e, num próximo, agitado ou com medo. Você pode se sentir confortável ao sentar em uma área externa com os raios do sol apenas para perceber após cinco minutos que os mesmos raios de sol agora estão te queimando.

Nossas mentes podem pular do passado para o futuro, daqui para algum lugar do outro lado do planeta, dentro de alguns poucos momentos. Nossas emoções são imprevisíveis, momentâneas e inconstantes. Você deveria se perguntar: por que eu estou tão disposto a acreditar que cada sentimento que tenho são verdadeiros?

Depois que você observa sua mente por algum tempo, você começa a perceber que algumas vezes suas emoções surgem como reações a certas situações, e, outras vezes, elas surgem sem motivo aparente. Você pode estar sentado na almofada em um quarto silencioso, sem ninguém ao redor, e, repentinamente, sentir-se com raiva ou triste.

Uma forma como nós comumente reagimos a esse tipo de energia emocional é procurar pela sua causa — ou por algo a se culpar. Entretanto, como parte do seu treinamento de lojong, você pode começar a quebrar o hábito de conectar seus sentimentos e reações emocionais a causas externas. Ao invés de procurar por uma causa ou alguém a quem se culpar pela forma que você se sente, perceba o quão propenso você é a reagir emocionalmente de certas formas e o quão profundos são seus hábitos emocionais. Afinal, você pode ter emoções intensas até mesmo quando não há nada presente para desencadeá-los.

Ao começar a perceber que você tem certos hábitos emocionais dominantes e é propenso a certos tipos de sentimentos, você começa a se identificar menos com eles. Você pode relaxar mais e encontrar mais contentamento no momento presente.

Tudo o que os mestres da nossa tradição budista nos mostraram foi que a felicidade verdadeira vem de pacificar nossas emoções e aceitar as pessoas e circunstâncias ao nosso redor. Quando nós nos sentimos relaxados, confortáveis e confiantes, nós não precisamos mais interpretar as circunstâncias indesejáveis como um ataque. Nós podemos simplesmente enxergar a interação dos eventos, pessoas e circunstâncias ao nosso redor e nos sentirmos livres para fazer as escolhas mais adequadas. Este é um passo no caminho para a liberdade.



SOBRE ANYEN RINPOCHE

Anyen Rinpoche é o fundador e diretor espiritual do Orgyen Khamdroling Dharma Center em Denver (EUA), onde conduz um shedra [centro de estudos] para ocidentais e oferece ensinamentos tradicionais da linhagem Longchen Nyingthig. Ele é o autor de Dying with Confidence [Morrendo com Confiança (tradução livre)] e Momentary Buddhahood [Budeidade Instantânea (tradução livre)] (Editora Wisdom).