quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Hitler era de direita. Mas por que se importar com isso?

Por Jerônimo Teixeira 29 ago 2017 na "Veja"

Charlottesville arranhou a identidade grupal da "nova direita" brasileira. Vem daí a bizarrice de afirmar que o nazismo é de esquerda.


, 13h05 - Publicado em 25 ago 2017, 21h25more_horiz


Os manifestantes que gritavam "sangue e terra": depois de extensa pesquisa no Twitter, o MBL concluiu que são todos socialistas (Alejandro Alvarez/News2Share/Reuters)

Os frequentadores da única sinagoga de Charlottesville foram aconselhados a sair pelos fundos depois dos rituais do Shabat. Foi assim porque a congregação de Beth Israel localiza-se em frente à praça que abriga a tão decantada e detratada estátua do general confederado Robert E. Lee, e naquele sábado, 12 de agosto – o mesmo dia em que um terrorista da direita racista atropelou e matou uma ativista dos direitos civis, Heather Heyer -, o local estava tomado de neonazis e supremacistas brancos que gritavam provocações antissemitas. Daniella Greenbaum, articulista da revista Commentary, observou que a recomendação de buscar a saída mais discreta da sinagoga seria banal na Europa dos séculos XIX e XX – mas o mesmo conselho, nos Estados Unidos do século XXI, é chocante.

Resumem-se a isso os eventos de Charlotesville: o retorno de aberrações históricas que ingenuamente imaginávamos superadas. A marcha dos brucutus que, portando ridículas tochas tiki, berravam “sangue e terra” e “judeus não vão tomar nosso lugar” deveria receber o repúdio universal de todas as vozes razoáveis do debate político, à direita e à esquerda. Sem prejuízo do repúdio (o firme e obrigatório repúdio que o presidente dos Estados Unidos não foi capaz de expressar com firmeza, como bem observou Eduardo Wolf em ensaio no ótimo portal Estado da Arte), caberia, claro, analisar o fenômeno: entender quem são esses homens brancos furiosos, o que os motiva, e que circunstâncias propiciaram que essa excrecência extremista saísse das margens da sociedade americana para ganhar o centro do noticiário internacional.

A conversa média da chamada “nova direita” brasileira, porém, não foi nem para a denúncia moral, nem para a análise política. A discussão concentrou-se em uma espécie de grenal (fla-flu, diriam os brasileiros) ideológico: o nazismo é de direita ou de esquerda? Há uma resposta historicamente consagrada para a questão, contra a qual os cruzados da blogosfera libertário-conservadora esperneiam. Os arautos da nova direita trombeteiam que o nazismo instaurou um Estado forte, e que isso é coisa de esquerda. Também lembram que o agrupamento político de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – repetindo: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Se era socialista, e ainda por cima dos Trabalhadores, então só pode ser de esquerda, certo?

São argumentos que podem ser expressos em um meme, o que diz muito sobre a profundidade do pensamento neodireitista capiau.

Essa avaliação esquemática da natureza do nacional-socialismo omite que comunistas e nazistas foram violentos adversários na República de Weimar. Na guerra, houve uma trégua estratégica, com os dois grandes totalitarismos do século XX irmanados sob o Pacto Molotov-Ribbentrop – mas esse acordo entre desiguais, como se sabe, não durou muito. Haverá, por óbvio, numerosos pontos em comum entre os dois regimes opressores. Todo totalitarismo é monstruoso, mas nazismo e comunismo são monstros distintos. Houve episódios de antissemitismo na União Soviética, mas a perseguição aos judeus e a ideia de uma raça superior não faziam parte do credo comunista. A Alemanha nazista desapropriou empresas – judaicas, sobretudo – e colocou toda a economia a serviço do Estado, mas não prometia uma sociedade sem classes nem tinha no burguês seu inimigo fundamental (diretores das indústrias Krupp, que forneceram armamento para o esforço bélico nazista, foram julgados por crimes de guerra em Nuremberg). Duda Teixeira, do blog Dúvidas Universais, definiu tudo de forma muito sintética: “A extrema esquerda fala em classe. A extrema direita, em nação”. Simples assim.

Li vários artigos da direita americana (a direita respeitável, não a fuleira alt-right) sobre Charlottesville, entre eles, o texto da Commentary citado lá no primeiro parágrafo. Encontrei um vivo e inteligente debate sobre o que fazer com os monumentos confederados (talvez escreva sobre isso adiante). Alguns autores faziam, sem relativizar a crítica ao supremacismo branco, a necessária condenação à violência do Antifa, movimento de esquerda que se opõe aos supremacistas. Li ainda críticas bem candentes à atitude de Trump (em artigo no Federalist, um membro do Tea Party pede nada menos que a renúncia do presidente). Não vi ninguém afirmar que os manifestantes de Charlottesville eram, na verdade, de esquerda. A tradição conservadora americana tem essa serena tranquilidade: entende que também a direita conhece suas versões totalitárias.
(No Brasil, o MBL foi se informar no Twitter de uma organização nazista americana. Descobriu que os nazis se definem como socialistas e achou que isso fechava a questão de uma vez por todas. Acusou a imprensa brasileira de “ocultar propositalmente” esse fato. Se seguir pesquisando nessas ricas fontes de informação histórica e teoria política, a rapaziada aguerrida do MBL um dia nos premiará com outro fato escandaloso que os jornais bolcheviques escondem propositalmente: o Holocausto é uma farsa.)

***

As vetustas noções de esquerda e direita, herdadas da Assembleia Nacional Francesa, são um tanto elásticas e imprecisas, mas há consensos bem estabelecidos sobre seus pontos extremos: comunismo à esquerda, nazi-fascismo à direita. Certos consensos devem ser chacoalhados de tempos em tempos, sim. Mas o que se ganha conceitualmente redefinindo o nazismo como movimento de esquerda? Entenderemos melhor o horror da II Guerra Mundial e do Holocausto se considerarmos que Hitler era esquerdista? Por que esse problema se tornou tão crucial para certa porção da direita brasileira?

As respostas para as duas primeiras perguntas são bem fáceis: “nada” e “não”. 

A terceira pergunta exigirá que este blogueiro recaia em sua incorrigível prolixidade. Antes de voltar aos memes do baixo direitismo brasileiro, vou fazer uma desvio pela esquerda latino-americana.


O escritor mexicano Carlos Fuentes, em foto de 2004: se é de esquerda, só pode ser bom, e se é ruim, não é de esquerda (Tiziana Fabi/AFP)

Em 2006, entrevistei Carlos Fuentes, por telefone, a propósito de Este É meu Credo, obra do escritor mexicano que a Rocco estava lançando no Brasil. No livro, Fuentes reafirmava suas convicções esquerdistas. Pedi a ele um balanço da esquerda latino-americana, e eis o que ele disse sobre o tiranete do momento: “Há várias esquerdas hoje, e vários líderes de esquerda. Exceto Hugo Chávez. Ele é um fascista que se disfarça de esquerdista”. Ninguém pensaria em contestar que o “Socialismo do Século XXI” advogado por Chávez (e por seu sucessor, Nicolás Maduro) é de esquerda. Se é verdade, como reza o lugar-comum marxista, que a história primeiro acontece como tragédia e depois se repete como farsa, o comunismo soviético será a tragédia, e o bolivarianismo, sua repetição como telenovela da Televisa. Fuentes, porém, negava que Chávez fosse de esquerda. O ditador venezuelano seria na verdade um fascista disfarçado, e muito bem disfarçado, pois enganava a todos, menos ao autor de Gringo Velho.

A esquerda brasileira ainda hoje apoia vergonhosamente o governo Maduro, mesmo depois do recente e violento recrudescimento autoritário (até onde vi, o único político de esquerda que condenou inequivocamente o regime venezuelano foi, para surpresa de muitos, o deputado Jean Wyllys; seu companheiro de partido Chico Alencar até ensaiou umas críticas a Maduro em entrevista à Época,mas a sua conversa me pareceu muito mole e muito morna). Conceda-se a Carlos Fuentes, portanto, o mérito de não escamotear a natureza autoritária do chavismo. Mas foi exatamente por perceber o desastre representado por Chávez que Fuentes precisou expurgá-lo da esquerda. A lógica é simples – aliás, simplória: se é ruim, não pode ser do meu time.

Tal reivindicação de um monopólio da virtude, que costumava ser quase exclusiva do progressismo, vem se tornando comum na direita brasileira mais rastaquera de uns anos para cá. Ocorre que, depois de décadas de domínio cultural esquerdista quase absoluto – mesmo durante a ditadura militar, como o marxista Roberto Schwarz observou em um ensaio da época -, uma nova geração tem descoberto ou redescoberto ideias liberais e conservadoras. O melhor do pensamento brasileiro sobre cultura e política está nessa nova onda. Pena que, com ela, venha o rebotalho: uma galeria lombrosiana de blogueiros estridentes e toscos, propensos a ver conspiratas do Foro de São Paulo até em logotipo da Olimpíada. É uma gentinha desqualificada, que entra na guerra cultural com muita agressividade e nenhum discernimento. Tornou-se ponto de honra, para esses divulgadores baratos do liberalismo, proclamarem-se “de direita”, e eles o fazem sempre com ostensiva imodéstia – pois ninguém mais tem a coragem de se opor às variadas ditaduras que comandam a mídia brasileira (a ditadura do politicamente correto, da ideologia de gênero, do gayzismo, e por aí vai). É fácil vislumbrar, entre os paladinos do neodireitismo, uma angustiada mas coesa identidade tribal. Admitir que um dos pesadelos históricos do século XX está na conta da direita seria abrir uma insuportável fissura nessa identidade monolítica.

O Indivíduo, com maiúscula, é um clichê e um fetiche na conversa cotidiana da direitinha fuleira, mas o fato é que os orgulhosos habitantes desse subúrbio intelectual criaram sua própria e torta versão das políticas identitárias da esquerda. Ao repetir, em uníssono, que só o Indivíduo tem valor, eles confirmam o desencantado aforismo de Adorno em Minima Moralia: “Em muitas pessoas já é um descaramento dizerem ‘Eu'”.

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Citei um filósofo marxista, o que deve bastar para que algum gentil leitor me chame de “comuna” nos comentários. Já aconteceu antes, por bem menos, e provavelmente aconteceria mesmo sem a frase de Adorno. Como oferta conciliatória ao direitista mais inflamado, termino com uma reflexão ligeira de Roger Scruton, filósofo de impecáveis credenciais conservadoras. Em um debate com o crítico marxista Terry Eagleton, Scruton se recusou a ser qualificado como um homem “de direita”: “As pessoas da direita não se identificam como tal, não como parte de um grupo. Nós apenas nos agarramos às coisas que amamos”.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O sofrimento que sentimos nasce em nossa mente


Séculos antes do desenvolvimento da ciência ocidental, o Buda chegou ao entendimento de que o sofrimento origina-se na mente – no “olho”, por assim dizer, “de quem vê”.

Embora os termos que ele usou possam diferir daqueles dos biólogos, neurocientistas e psicólogos modernos, os insights que ofereceu são notavelmente semelhantes.

De acordo com as primeiras apresentações escritas dos ensinamentos do Buda sobre a Segunda Nobre Verdade, dukkha surge de uma condição mental básica, que, em páli, refere-se ao termo tanha, ou “desejar”. Os estudantes que fizeram as transcrições iniciais do páli para o sânscrito traduziram a causa como trishna, ou “sede”. Quando os ensinamentos foram trazidos para o Tibete, a causa foi traduzida como dzinpa, ou “impulso de agarrar”. 

À sua própria maneira, cada um desses três termos reflete um anseio mental fundamental em direção à permanência ou estabilidade – ou, visto de outra forma, uma tentativa de negar ou ignorar a impermanência.
O mais básico desses anseios é a tendência, muitas vezes descrita nos textos budistas como ignorância, de confundir “eu”, “outro”, “sujeito”, “objeto”, “bom”, “ruim” entre outras distinções relativas como tendo uma forma independente, inerentemente existente.

Em um nível muito simples, a ignorância poderia ser descrita por pensar que o rótulo de uma garrafa de molho picante é o molho em si. 

Da concepção de que pessoas, lugares e coisas são inerentemente sólidas e reais surgem dois impulsos igualmente poderosos. O primeiro, em geral chamado de desejo, é um anseio de adquirir ou manter o que determinamos como agradável. O segundo, conhecido como aversão, é um movimento na direção oposta, para evitar ou eliminar coisas que definimos como desagradáveis. 

Juntos, ignorância, desejo e aversão são chamados nos textos budistas de “os três venenos”, hábitos tão profundamente arraigados de como nos relacionar com as experiências que nublam ou “envenenam” a mente. 

Individualmente e em conjunto, dão origem a inúmeras outras atitudes e emoções – por exemplo, orgulho, perfeccionismo, baixa autoestima ou ódio contra si mesmo; o ciúme que sentimos quando um colega de trabalho recebe uma promoção que pensamos merecer; ou um nó de tristeza e desesperança que nos oprime quando lidamos com um parente doente ou idoso. Dessa forma, alguns ensinamentos budistas referem-se a essas atitudes e emoções como “aflições” ou “obscurecimentos”, porque limitam as maneiras com que interpretarmos a experiência – que, por sua vez, inibe o nosso potencial de pensar, sentir e agir.

Uma vez que desenvolvemos um sentimento de “eu” e “não eu”, começamos a nos relacionar com a nossa experiência em termos de “meu” e “não meu”; “o que eu tenho” e “o que eu não tenho”; e “o que eu quero” e “o que eu não quero”. 
Imagine, por exemplo, que enquanto você está dirigindo seu carrinho bem velho e decaído pela estrada, passe por você um carro novo e luxuoso – um Mercedes ou um Rolls-Royce que acabou de ser amassado em um acidente. Você poderia até sentir um pouco de pena do proprietário, mas não necessariamente sentiria qualquer ligação com o automóvel.

Poucos meses depois, vendo-se na posição de trocar o seu velho carro, vai visitar uma loja de carros usados e encontra disponível um Mercedes ou Rolls-Royce por um preço inacreditável. Na verdade, é o mesmo automóvel que você viu amassado no acidente meses antes, mas assim que assina o contrato, isso não importa. O carro é seu agora – e ao dirigi-lo de volta para casa, uma pedra bate e trinca o para-brisa. Tragédia! Meu carro está arruinado. Eu tenho que gastar para consertá-lo! É o mesmo carro que você viu amassado em um acidente alguns meses atrás, e então não sentiu nada ao passar por ele. Mas agora é o seu carro, e se o para-brisa estiver trincado, você sente muita raiva, frustração e talvez um pouco de medo. 

Então, por que simplesmente não paramos com isso? Por que não abrimos mão dos venenos e das suas “crias”? 

Se fosse assim tão fácil, é claro, todos nós seríamos Budas antes que pudéssemos chegar ao final desta frase! Segundo os ensinamentos do Buda e os comentários de outros mestres, o Três Venenos e todos os outros hábitos emocionais que surgem a partir deles não são, em si mesmos, as causas do sofrimento. 

Ao contrário, o sofrimento surge do apego a eles, que é o mais próximo que podemos chegar do significado essencial da palavra dzinpa em tibetano.
Conforme foi mencionado anteriormente, essa palavra é geralmente interpretada como um “impulso de agarrar”, mas também já ouvi a tradução de “fixação”, que penso ser a que mais se aproxima do significado profundo do termo.

Dzinpa é uma tentativa de fixar no tempo e no espaço o que está em constante movimento e mutação. “Tal como matar borboletas”, disse uma de minhas alunas. 

Quando perguntei o que queria dizer com isso, ela descreveu as pessoas que têm o hobby de caçar e matar borboletas, e depois fixar seus corpos em telas de vidro pelo puro prazer de olhar para a sua coleção ou mostrá-la aos amigos.

“Criaturas tão lindas e delicadas”, disse ela com tristeza. “Elas são feitas para voar. Se não voarem, não são realmente borboletas, não é?” De certa forma ela estava certa.

Quando ficamos fixados em nossas percepções, perdemos nossa capacidade de voar.

* * *
Nota do editor: este texto é um trecho do livro Alegre Sabedoria, de Yongey Mingyur Rinpoche, respeitado mestre de meditação tibetana. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor publicado no PapodeHomem. É parte de uma nova parceria, que nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano que o PapodeHomem apoia. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ex-diretora-executiva do "O Boticário" largou tudo pra ser estagiária em uma floricultura.



Conheça a história de Andrea Mota, ex-diretora de O Boticário, que largou uma carreira brilhante em busca de qualidade de vida

Com diagnóstico de síndrome de burnout – “pane” causada por pico de estresse –, a então big boss da marca resolveu mudar drasticamente de vida. “Não quero mais ser executiva. O preço é alto demais”, diz a nova estagiária de uma floricultura


Andrea Mota largou tudo pra ser estagiária em uma floricultura (Foto: Daniel Katz)


"Dezembro de 2013. Era o meu 5o ano como diretora-executiva de O Boticário. Gerenciava quatro diretores, 700 funcionários, mil franqueados e uma equipe indireta de 25 mil pessoas. Bom, vocês imaginam o quão estressante era esse período de fim de ano, época de pressão máxima pra bater metas. Estava exausta! Sentia meu corpo e minha mente no limite: insônia, tontura, mau humor, tremores faciais... os sinais de estresse estavam ali, escancarados. Mas, ok, nada de novo no front, afinal havia aprendido a lidar com todo tipo de pressão. “Você sempre deu conta, só precisa de férias”, repetia pra mim mesma. Porém, daquela vez foi diferente.

Nem a viagem de férias me fez melhorar. Bem pelo contrário. No dia 11 de janeiro de 2014, estava com o Natan, meu marido, e meus filhos, Caio e Izadora, na Bahia – moro há 13 anos em Curitiba, mas sou baiana e tenho casa lá –, e acordei com uma dor de cabeça infernal. Minha mente parecia mais acelerada que o normal, não sei explicar ao certo. Também não conseguia levantar da cama. Fiquei lá, tentando descansar, e o Natan levou as crianças à praia. Não queria que elas me vissem daquele jeito. Mais tarde, quando já estavam todos de volta, meus braços, do nada, paralisaram. Entrei em desespero! “Estou tendo um derrame!”, gritei. O Natan ligou correndo pra minha irmã, que é médica e nossa vizinha de condomínio. 

Já no hospital, após uma bateria de exames, veio o diagnóstico: síndrome de burnout. É uma doença dos tempos modernos, caracterizada por um estado máximo de exaustão física, mental e emocional devido ao acúmulo de estresse. Assim: o organismo recebe um excesso de estímulos tão grande que os neurotransmissores simplesmente param de fazer sinapses. Tipo uma pane. Por sorte, a minha foi leve. Gradativamente, tudo foi voltando ao normal com a ajuda de remédio pra dormir e antidepressivos. “Mude de vida. Reduza o ritmo, faça terapia, se exercite, cuide mais de você”, recomendou o médico.

Exatos nove dias depois do surto, já estava em Curitiba, de volta ao trabalho. Foi um dia horrível. Lembro-me de ter sentido medo das minhas reações, já que pela primeira vez na vida não estava no controle. Tive uma longa reunião com o Artur [Artur Grynbaum, presidente do Grupo Boticário] e com a diretoria pra explicar o ocorrido – fui o mais transparente possível e pedi compreensão. Todos concordamos que eu reduziria o ritmo: na prática, passei a ser mais seletiva com os compromissos e diminuí o número de viagens. Além de continuar com os remédios, montei uma superequipe pra me ajudar a reduzir o estresse: psicólogo, personal trainer, coach, homeopata, massoterapeuta. Tinha ao meu lado o time mais incrível do mundo, mas não fazia ideia de como, de fato, mudar meu ritmo. Veja bem, durante a minha gestão, a empresa cresceu três vezes mais que o esperado e se tornou uma das marcas mais admiradas do País. Só pra dar um exemplo: as metas traçadas pra 2018 foram alcançadas em 2014. Ninguém consegue tamanho sucesso com uma dedicação mais ou menos. É preciso comprometimento, paixão. Por isso, jornadas de trabalho de 14 horas por dia são inevitáveis, assim como um terceiro turno, viagens internacionais, mil eventos e jantares com clientes. Ser bem-sucedida é incrível, mas o preço que se paga é altíssimo. 


Nem durante a gravidez considerada de risco (por ser de gêmeos), Andrea diminuiu o ritmo no trabalho (Foto: Divulgação)


Acho que o que mais dói quando se tem uma top carreira é que o tempo pra família é quase nulo. Via os meus filhos coisa de duas horas por dia. Se me sentia culpada? O tempo todo! Mas sou de uma geração que aprendeu que a mulher tinha que ser independente a qualquer custo e que o trabalho árduo era o único caminho pro sucesso. Tinha esses valores tão incrustados em mim que mantive a rotina frenética até durante a gravidez, considerada de alto risco, já que era gemelar e eu tinha 37 anos. Os gêmeos, frutos de uma fertilização in vitro, nasceram prematuros e ficaram 28 dias na UTI. Quase morri de felicidade quando eles puderam ir pra casa. Lá, ganharam peso e tamanho, e voltei ao serviço no final do terceiro mês – dali em diante, sempre contei com a ajuda de ótimas cozinheiras e babás, além do Natan, que é um supermarido. Como ele é advogado, tem uma agenda flexível e mais tempo pras crianças.

Bom... Mesmo reduzindo o ritmo e tentando de tudo, o fato é que eu não estava mais feliz no trabalho. Era hora de encarar a realidade: já havia construído o meu legado e aquela vida já não me bastava mais. Precisava me reinventar, sabe? Adquirir novos conhecimentos, quem sabe começar uma outra carreira... Com isso, parei, fiz as contas e comecei a me planejar. Em outubro de 2014 (acho até que aguentei bastante!), comuniquei aos chefes a minha decisão de me desligar da empresa. As reações foram as mais diversas, da surpresa à raiva, mas segui decidida e segura da minha decisão. No dia 5 de janeiro de 2015, dei meu adeus definitivo. Hoje, com 46 anos e orgulhosa da minha coragem, finalmente aceitei que não sou uma máquina. Sou de carne, osso e emoções e tenho apenas duas certezas na vida: não quero mais ser executiva e quero ter tempo pra mim. Continuo com a minha psicóloga na tentativa de me conhecer melhor e achar uma nova carreira. Até lá, estou fazendo cursos de culinária, fotografia e ioga, e em breve começo o estágio em uma floricultura. Adoro poder levar meus filhos ao cinema à tarde. É como dizia o poeta italiano Torquato Tasso: “Perdido é todo tempo que com amor não se gasta”.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Um homem só, um homem preso e um homem livre

Um “homem só” não existe.

Todo os homens estão acompanhados por tudo que lhes trouxe até ali, cercados por tudo que "construiu" o “ali” onde ele esta. Acompanhados por todos que lhe estimularam durante sua vida e também por todos que lhe podaram em seu passado, todos que lhe negaram e todos que lhe deram suporte, todos cuja a presença ou a ausência o tornaram único e possível de estar ali. Um "homem só" é aquele que não percebe a tudo que esta ligado. É um engano comum. Não é difícil corrigir este engano.

Fazendo uma pequena auto-análise percebemos vários instantes em nossas vidas que se tivesse ocorrido apenas mais apoio “nisso” ou "naquilo" já seriamos uma pessoa diferente. Olhando com mais cuidado veremos que se fossemos menos estimulado em determinados comportamentos e atitudes certamente seriamos pessoas ainda mais diferentes. Se tivéssemos mais oportunidade para “outro tanto” faríamos tudo diferente... Fatalmente somos consequência de um universo de estímulos e ausências. Não somos plenamente “livres”. Percebendo que tudo esta ligado as “causas” que nos deram “condição” de estar e ser como estamos e somos, nossa interpretação limitada da realidade nos suscita um terrível problema: “Estamos irremediavelmente “preso” a tudo que nos condicionou???


Felizmente não.

O homem não é limitado pelas causas e condições. Apesar de ser esta a primeira impressão que se possa ter esta não é a única resposta diante de uma realidade de causas e consequências como a nossa.

Todo o homem nasce no mar de causas e consequências. Mas as “condições” são como o ar e a gravidade na vida de um pássaro por exemplo. A “consciência” de um homem é como as asas de um pássaro diante das condições ou ventos que a vida lhe apresenta.

Você não nasce livre, mas se é potencialmente livre.

Assim como um pássaro que nasce pesado na terra e preso a lei da gravidade e não se furta de aprender a voar um homem é um ser que nasce no carma e no mar de Samsara, mas potencialmente, pode viver o Nirvana.

Assim um homem que se vê “só” é como o pássaro que não percebe o vento e a tudo e a todos que esta inegavelmente ligado.


Um homem se vê “preso” é como um pássaro percebe apenas seu peso, o rigor do vento que lhe oprime. 

Um homem que estuda sua mente é como um pássaro que explora as utilidades de suas asas.

Um homem  iluminado é um pássaro que plana nas alturas sobre as intemperes.

Abramos nossas asas. Sintamos o vento. Sigamos.